Mudança Estrutural no Comércio Exterior Brasileiro
O Brasil tem demonstrado uma resiliência notável diante das sobretaxas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Segundo Marcos Troyjo, ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), conhecido como Banco dos Brics, essa menor exposição se deve a uma profunda transformação no perfil do comércio exterior brasileiro nas últimas duas décadas. O fortalecimento dos mercados asiáticos como destino das exportações nacionais é o principal motor dessa mudança estrutural.
Expansão das Relações Comerciais com a Ásia
Em entrevista ao Poder360, Troyjo explicou que o crescimento da renda em países asiáticos impulsionou a demanda por alimentos e matérias-primas, setores onde o Brasil possui vantagens comparativas. O exemplo mais emblemático é a China: em 2001, o fluxo comercial bilateral era de cerca de US$ 1 bilhão anualmente. Atualmente, esse volume é movimentado em aproximadamente 50 horas. Essa dinâmica alterou significativamente o destino das exportações brasileiras, com a Ásia respondendo por cerca de um terço das vendas externas do país, enquanto os EUA representam uma parcela consideravelmente menor. Dados do Comex Stat confirmam essa tendência, com a China respondendo por 31,6% das exportações brasileiras no primeiro semestre de 2026, contra 9,4% dos EUA.
Diversificação de Mercados e Vantagens Comparativas
O avanço das relações comerciais com outros mercados asiáticos, como Índia, Indonésia, Vietnã, Bangladesh e Paquistão, também contribuiu para reduzir a dependência do mercado norte-americano. No agronegócio, por exemplo, a tarifa média aplicada aos produtos brasileiros é de 9,2% na China, inferior aos 11,8% nos EUA. Em 2024, as importações chinesas de produtos agropecuários brasileiros totalizaram US$ 52,5 bilhões, quase sete vezes mais do que os US$ 7,9 bilhões comprados pelos norte-americanos. Troyjo ressalta que o Brasil também ficou fora do foco principal da ofensiva comercial dos EUA, que se concentrou em economias como China, União Europeia, Japão, Coreia do Sul, México e Canadá. Isso se deve, em parte, ao fato de o Brasil não integrar a lista de 42 países investigados pelo USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos) por capacidade estrutural excessiva.
Impacto Limitado das Tarifas e Esforços Diplomáticos
O impacto potencial das tarifas sobre o Brasil é estimado em cerca de US$ 6 bilhões em exportações, um valor significativamente inferior às projeções para México (US$ 80 bilhões) e China (US$ 46 bilhões). Apesar dessa menor exposição, Troyjo defende a continuidade dos esforços diplomáticos para preservar o acesso ao mercado norte-americano. Ele argumenta que o governo e o setor privado devem perseverar no esforço negociador, visto que os EUA ainda são o maior mercado consumidor do mundo e um destino importante para exportações brasileiras de maior valor agregado.
Fonte: www.poder360.com.br

