Setor de Saúde em Alerta com Novas Tarifas dos EUA
A indústria brasileira de saúde está em estado de alerta com a iminente entrada em vigor de novas taxas tarifárias impostas pelos Estados Unidos. A partir de abril de 2025, o governo americano, após concluir que o Brasil adota práticas que oneram ou restringem o comércio, instituiu uma tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos exportados. Essa medida, parte de uma série de mudanças nas taxas de comércio global desde 2025, gera preocupação quanto à perda de competitividade no principal mercado de exportação do setor produtivo nacional.
Adicionalmente, o presidente americano Donald Trump anunciou que medicamentos genéricos importados pelos EUA terão alíquotas elevadas para 100% em agosto de 2028 e 200% em 2029. Embora vacinas e alguns produtos farmacêuticos estejam isentos da tarifa vigente e a participação do Brasil no comércio de remédios seja baixa, o impacto pode ser significativo em áreas como dispositivos médicos e tecnologias para saúde. Os Estados Unidos representam o principal destino das exportações brasileiras nesse segmento, com vendas acumuladas de quase US$ 290 milhões em 2025 e US$ 96,5 milhões apenas entre janeiro e maio de 2026. Os produtos mais exportados incluem equipamentos hospitalares, itens de diagnóstico, implantes, próteses, materiais para procedimentos médicos e tecnologias odontológicas.
Desafios na Adaptação e Redirecionamento de Vendas
Fernando Silveira Filho, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Tecnologia para Saúde (Abimed), destaca que a nova tarifa representa um desafio para empresas com produções exclusivas para exportação. O redirecionamento de vendas para outros mercados, embora uma possibilidade, esbarra em complexidades como exigências regulatórias e a necessidade de canais de exportação já estabelecidos. Para empresas nacionais com maior flexibilidade, a diversificação rápida ainda é um processo complicado.
Diante desse cenário, a indústria já começa a discutir alternativas estratégicas. Jamir Dagir Jr., presidente da Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos (Abimo), revela que algumas empresas consideram absorver parte do custo adicional para manter sua presença no mercado americano, o que implicaria em redução de margens de lucro. Outras avaliam a expansão para mercados alternativos, enquanto algumas já analisam medidas de contenção de custos, incluindo a revisão de investimentos e, potencialmente, da estrutura de pessoal, caso o cenário se prolongue.
Origem das Tarifas e Risco de Novas Medidas
A imposição dessas tarifas adicionais é resultado de uma investigação comercial conduzida pelo Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana. O relatório do USTR apontou preocupações com temas como o PIX, propriedade intelectual e regulação de plataformas digitais, considerados prejudiciais aos EUA. Há ainda a possibilidade de o governo brasileiro aplicar outra taxa de 12,5% até o final de julho, por supostas falhas na fiscalização de importações produzidas com trabalho forçado. Se cumulativa, a sobretaxa total sobre produtos brasileiros poderia atingir 37,5%.
“Ainda tem o risco de vir outra parte do tarifaço, então a cadeia global está afetada e sentindo impactos na estrutura de abastecimento”, avalia Silveira Filho. Ele ressalta que as movimentações tarifárias dos EUA afetam países com excedente de produção e nações dependentes de importações, como o Brasil, tornando o momento crítico.
Reação do Governo e Propostas do Setor
Em resposta às preocupações do setor, o governo federal anunciou a liberação de R$ 18,5 bilhões em crédito para empresas afetadas pelas tarifas adicionais. Essa medida se soma a um plano de R$ 130 milhões para apoiar a diversificação das exportações brasileiras, divulgado pela ApexBrasil. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) também promoveu reuniões com os setores impactados, incluindo o de dispositivos médicos, para discutir estratégias de preservação da competitividade da indústria nacional.
O receio do setor produtivo agora reside na possibilidade de o Brasil acionar a Lei da Reciprocidade Econômica, que permite medidas de retaliação. Silveira Filho considera que a aplicação dessa lei no caso de dispositivos e tecnologias médicas seria contraproducente, pois encareceria produtos americanos e impactaria negativamente o Sistema Único de Saúde (SUS) e os planos de saúde. Entre as propostas apresentadas ao MDIC, destacam-se a criação de mecanismos de restituição de tributos sobre exportações impactadas, a ampliação de linhas de financiamento para inovação e internacionalização, e a redução de encargos sobre a folha de pagamento. O cenário atual, segundo Dagir Jr., reforça a tendência global de fortalecimento das cadeias produtivas nacionais em setores estratégicos e a necessidade de o Brasil avançar em sua agenda de competitividade, transformando este momento em oportunidade para fortalecer a indústria com medidas que reduzam custos, ampliem o acesso à inovação e facilitem a conquista de novos mercados.
Fonte: futurodasaude.com.br

