Modelo de Negócio Comprometido
A acentuada queda do Bitcoin, superando os 50% desde o pico de outubro de 2025, tem abalado o modelo de negócio de empresas que transformaram seus balanços em verdadeiras tesourarias da criptomoeda. De acordo com dados da bitcointreasuries.net, aproximadamente 30 companhias do setor já negociam com um múltiplo sobre o Valor Líquido dos Ativos (mNAV) inferior a 1. Isso significa que o valor de mercado dessas empresas na bolsa é menor do que o montante de Bitcoin que elas detêm em caixa.
A Alavancagem Travada
Essa inversão de valor representa um sério obstáculo para a principal estratégia de crescimento dessas empresas: a emissão de novas ações para adquirir mais Bitcoin. Quando o valor da ação é superior ao das reservas em criptomoeda, emitir papel e reinvestir o capital se torna uma alavancagem eficaz. No entanto, com o mNAV abaixo de 1, essa engrenagem para de funcionar, dificultando a captação de recursos para expansão.
Exemplos e Contrapontos no Mercado
A MicroStrategy, de Michael Saylor, pioneira nesta estratégia, tem enfrentado dificuldades. A empresa já precisou vender parte de suas reservas de Bitcoin para reforçar seu caixa em dólares e honrar compromissos financeiros, o que aumentou o ceticismo do mercado. A S&P Global Ratings já havia emitido alertas sobre os riscos inerentes a esse modelo, citando a alta concentração em Bitcoin, a baixa liquidez em dólar e a ausência de geração de caixa própria dos ativos.
No cenário brasileiro, a OranjeBTC também sente os efeitos da desvalorização do Bitcoin, tendo iniciado um programa de recompra de suas próprias ações. Em contrapartida, a Méliuz, apesar de registrar prejuízos contábeis com sua reserva em Bitcoin, mantém um prêmio em bolsa. Isso se deve ao seu negócio operacional de cashback, que gera receita e fluxo de caixa, demonstrando que para empresas com fontes de receita diversificadas, o Bitcoin se torna um ativo complementar e não o cerne do negócio.
Riscos e Desafios para Tesourarias Puras
O modelo de empresas que dependem exclusivamente de suas reservas de Bitcoin para gerar valor está sob pressão. A falta de geração de caixa própria, somada à volatilidade da criptomoeda e à necessidade de honrar dívidas e dividendos em moeda fiduciária, cria um descasamento financeiro significativo. A possibilidade de ter que vender Bitcoin em momentos de baixa para cobrir despesas se torna um risco real, como alertado pela S&P, que pontua que esses ativos provavelmente seriam vendidos a preços severamente deprimidos.
O caso da Tesla e da Block (antiga Square) no exterior ilustra a diferença. Ambas detêm grandes quantidades de Bitcoin, mas o valor de mercado de suas ações é determinado por seus negócios principais – venda de carros e serviços financeiros, respectivamente. Nesses casos, a reserva em criptomoeda é um complemento, e sua desvalorização, embora gere prejuízos contábeis, não ameaça a estrutura fundamental da empresa.
Fonte: neofeed.com.br

