O Fenômeno do “Capacitismo Recreativo”
A internet se tornou um palco para a visibilidade de pessoas com deficiência (PcDs), mas um debate crescente surge em torno do chamado “capacitismo recreativo”. Esse termo descreve a prática de usar deficiências como forma de humor ou em conteúdos que, embora possam gerar curiosidade, acabam por reforçar estereótipos negativos e a ideia de que PcDs são incapazes ou permanentemente em estado de “coitadismo”. A discriminação disfarçada de piada ou a supervalorização de tarefas cotidianas podem dificultar a quebra de uma cultura capacitista arraigada.
Monetizando a Rotina: Entre a Ajuda e a Especulação
A produção de conteúdo digital transformou a rotina de cuidados e adaptações em uma fonte de renda para muitos. Vídeos mostrando como uma pessoa com nanismo dirige ou como alguém com mobilidade reduzida realiza tarefas básicas como tomar banho acumulam milhões de visualizações, gerando receita para seus criadores. Embora essa exposição possa oferecer dicas valiosas e produtos úteis para outras PcDs e seus cuidadores, ela também levanta questionamentos sobre a linha tênue entre o compartilhamento de vivências e a exploração da imagem em prol do engajamento e da monetização. A curiosidade do público, nesse contexto, pode se converter em um olhar especulativo sobre o cotidiano íntimo de indivíduos com deficiência.
O Limite da Exposição e a Voz das PcDs
A influenciadora e pessoa com deficiência Amanda Soares levanta uma questão crucial: “Até onde uma pessoa com deficiência intelectual que está sendo cuidada quer ser filmada tomando banho? A gente não dialoga sobre isso.” Essa reflexão aponta para a necessidade de um diálogo mais profundo sobre os limites éticos na produção de conteúdo que envolve PcDs, especialmente aquelas com deficiências que afetam a autonomia ou a comunicação. A secretária nacional de políticas para pessoas com deficiência reforça a importância de que as PcDs sejam as narradoras de suas próprias histórias, detendo o controle sobre como e quando sua imagem e suas experiências são compartilhadas.
Visibilidade Histórica e os Desafios Atuais
Historicamente, pessoas com deficiência foram marginalizadas, invisibilizadas ou retratadas de forma caricata e preconceituosa. Nesse cenário, a internet surgiu como uma ferramenta para conquistar visibilidade. No entanto, a forma como essa visibilidade é conquistada e utilizada continua a ser um ponto de debate. A busca por representatividade não deve, contudo, abrir precedentes para a objetificação ou para a perpetuação de estereótipos prejudiciais. A sociedade precisa avançar para além da curiosidade superficial e do entretenimento, promovendo uma inclusão genuína e respeitosa.
Fonte: viva.com.br

