Câncer de Mama no Brasil: Disparidades Regionais Criam Jornadas Desiguais de Diagnóstico e Tratamento
Acesso a exames, terapias e tempo de espera variam drasticamente de acordo com o CEP, expondo fragilidades no sistema de saúde público e privado.
O câncer de mama, o tipo mais incidente entre as mulheres brasileiras, com mais de 78 mil novos casos estimados anualmente, revela um cenário de profundas desigualdades regionais no país. A jornada de diagnóstico e tratamento para pacientes com a doença é marcada por um abismo entre o que é oferecido em diferentes localidades, onde o local de moradia, representado pelo CEP, muitas vezes define o acesso a exames, a agilidade no início do tratamento e, consequentemente, as chances de cura.
Gargalos no Acesso: Da Mamografia à Cirurgia
A falta de acesso a exames de rastreamento, como a mamografia, é um dos primeiros grandes entraves. Em Fortaleza, por exemplo, a fila para mamografias chegou a ter 42 mil mulheres, com esperas que ultrapassaram quatro anos em alguns casos, impedindo o diagnóstico precoce. No Rio Grande do Sul, o problema se manifesta após o diagnóstico, com pacientes aguardando até três anos por uma cirurgia, com variações significativas entre as regiões do estado. Essa fragmentação no cuidado, que pode se estender do diagnóstico ao tratamento e acompanhamento, impacta diretamente a sobrevida das pacientes.
Disparidades no Tratamento: SUS vs. Rede Privada
Estudos apontam que pacientes atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) tendem a chegar aos hospitais em estágios mais avançados da doença e apresentam menor sobrevida em comparação com aquelas tratadas na rede privada. Essa diferença é acentuada em subtipos de câncer de mama mais agressivos, como o triplo negativo e o HER2 positivo, onde tratamentos inovadores, como a imunoterapia e terapias-alvo mais recentes, nem sempre estão disponíveis no sistema público, ou o acesso se dá de forma mais tardia. Mesmo em estados com melhor infraestrutura, como São Paulo, as desigualdades são evidentes, levantando preocupações sobre regiões com menor capacidade de gestão e estrutura.
Políticas Públicas e a Busca por Equidade
O Brasil tem buscado estruturar uma Política Nacional de Câncer para padronizar diretrizes e transformar normativas em programas efetivos de prevenção e rastreamento. A criação de um departamento dedicado ao tema no Ministério da Saúde em 2023 é um passo importante, mas a implementação efetiva de linhas de cuidado integradas e a superação dos gargalos regionais ainda são desafios significativos. Iniciativas como unidades móveis que levam mamografia ao interior de estados do Nordeste e programas de navegação de pacientes em Santa Catarina demonstram o potencial de modelos que buscam reorganizar o acesso e acelerar o processo diagnóstico-terapêutico.
Tecnologia e Prevenção: Caminhos para o Futuro
A incorporação de novas tecnologias, como testes genéticos e inteligência artificial na análise de exames de imagem, promete avanços na caracterização de tumores e na precisão diagnóstica. A aprovação de testes genéticos no SUS é um marco, assim como a inclusão da imunoterapia nos protocolos. No entanto, especialistas ressaltam que a tecnologia, por si só, não resolve o problema. Políticas de prevenção eficazes, como a recomendação de início da mamografia aos 40 anos, a conscientização da população e a capacitação de profissionais são fundamentais para garantir que todas as mulheres, independentemente de onde vivam, tenham acesso a um cuidado oncológico equitativo e de qualidade.
Fonte: futurodasaude.com.br

