Infraestrutura e Fragmentação: Os Obstáculos na Gestão da Informação em Saúde
O Sistema Único de Saúde (SUS), responsável pela assistência de cerca de 75% da população brasileira, produz diariamente um volume massivo de dados sobre atendimentos e procedimentos. Contudo, a organização, qualificação e utilização dessas informações são dificultadas por desafios de infraestrutura, defasagem, fragmentação e complexidade. Especialistas apontam que a gestão da informação no SUS precisa de melhorias para que os dados se transformem em políticas públicas eficazes.
DataSUS e RNDS: Avanços e Limitações na Integração de Dados
O Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DataSUS) tem sido fundamental na implementação de sistemas de informação há 35 anos, reunindo dados sobre mortalidade, internações e recursos financeiros. Mais recentemente, a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), lançada em 2020, busca conectar sistemas públicos e privados para permitir o acesso ao histórico clínico dos pacientes. Apesar de já contar com mais de cinco bilhões de registros, a RNDS ainda enfrenta o desafio de padronizar e integrar informações que, em parte, permanecem distribuídas em sistemas locais e regionais.
O Desafio de Transformar Dados em Informação para Tomada de Decisão
Apesar da vasta quantidade de dados coletados, o SUS enfrenta a dificuldade de transformá-los em informações acionáveis para a gestão. Mauro Junqueira, secretário executivo do Conasems, destaca que a pressão na ponta do sistema e a defasagem temporal entre a ocorrência de um evento e a disponibilidade dos dados consolidados podem atrasar decisões cruciais, como a identificação de surtos epidemiológicos. A falta de dados precisos sobre diagnósticos e a dificuldade em estimar a demanda por novas tecnologias, como apontado por Nélio César de Aquino, do Ministério da Saúde, também impactam o planejamento de aquisições e a assistência farmacêutica.
Impacto no Acesso e a Busca por Qualidade e Acessibilidade
A escassez de informações claras e a fragmentação nos registros dificultam a mensuração das filas de espera por atendimentos especializados, comprometendo a regulação do acesso. Evelyn Santos, da Umane, ressalta a necessidade de integrar e aprimorar essas informações, além de fortalecer a atenção primária para acompanhar a jornada completa do paciente. A qualidade dos dados é outro ponto crítico, com inconsistências em registros de vacinação, por exemplo, distorcendo o panorama da saúde pública. Bernardo Jazra, do IEPS, aponta que, apesar da abundância de dados, a complexidade e a falta de estruturação exigem conhecimento especializado para sua análise, limitando seu uso prático. Iniciativas como o IEPS Data e o Observatório da Saúde Pública buscam tornar essas informações mais acessíveis, mas a estruturação de dados em campos e formatos padronizados é vista como essencial para a geração de indicadores confiáveis e o aprimoramento do planejamento.
O Caminho para um SUS Mais Informado: Governança, Investimento e Integração
Especialistas concordam que os próximos passos para que o SUS utilize plenamente seus dados envolvem a melhoria da qualidade e do detalhamento das informações, regras claras de governança, investimentos contínuos e maior integração entre os sistemas. A mudança na governança e regulação do uso de dados é vista como vital para aumentar a visibilidade sobre o impacto das decisões. No entanto, os recursos destinados à área de transformação digital ainda são considerados insuficientes. A interoperabilidade da RNDS, por exemplo, exige não apenas infraestrutura, mas também padrões comuns, profissionais capacitados e capacidade institucional para adaptação e manutenção. Apesar dos desafios, a consolidação nacional das informações e a criação da RNDS representam uma base sólida para o avanço, colocando o Brasil em destaque internacional na digitalização da saúde, mas é preciso infraestrutura e soluções que traduzam esses dados em um cuidado mais eficaz para a população.
Fonte: futurodasaude.com.br

