Ameaça no Vento: A Soja Invade os Parreirais
O prestígio dos vinhos gaúchos, cultivados em regiões como a Campanha Gaúcha e novas áreas emergentes, está sob grave ameaça. O vilão não é uma praga ou doença, mas sim os herbicidas hormonais utilizados na expansão da cultura da soja. Nas últimas duas décadas, a área plantada com a oleaginosa no estado dobrou, atingindo aproximadamente 6,6 milhões de hectares. Essa expansão tem levado à contaminação de parreirais localizados a quilômetros de distância, com ventos carregando os defensivos agrícolas.
Danos e Prejuízos: Um Cenário Alarmante
Cerca de 4 mil hectares de vinhedos, distribuídos por 45 municípios, já sofreram danos significativos. Este número representa quase 10% de toda a área de videiras no Rio Grande do Sul. Entre 2018 e 2024, aproximadamente 700 hectares deixaram de ser cultivados, resultando em um prejuízo financeiro estimado em R$ 350 milhões. Um estudo encomendado pelo Consevitis-RS e realizado pela Fundação Empresa-Escola de Engenharia da UFRGS aponta que os efeitos dos herbicidas hormonais nas videiras deixaram de ser ocorrências isoladas e se tornaram um risco permanente para a vitivinicultura gaúcha, afetando investimentos, expansão de negócios e o desenvolvimento do setor.
Regulamentação Insuficiente e Disputas Judiciais
Apesar das tentativas de regulamentação, como a obrigatoriedade de informar previamente à Secretaria Estadual da Agricultura sobre a aplicação de defensivos e a proibição de pulverização aérea em condições de vento forte, as normas atuais se mostram insuficientes. Luciano Rebellatto, vice-presidente do Consevitis-RS, destaca que o novo estudo visa embasar a criação de regras mais eficazes e ferramentas de monitoramento. Na Campanha Gaúcha, a topografia plana, que favorece o cultivo mecanizado da soja, intensifica o problema. Uma ação civil pública busca restringir o uso do herbicida 2,4-D, o mais comum na soja, e embora a justiça tenha emitido uma decisão favorável à restrição em áreas de Indicação de Procedência (IP) Campanha Gaúcha, a falta de trânsito em julgado e a permissão de uso de outros herbicidas, como o dicamba, mantêm a insegurança jurídica.
Impacto em Produtores e Empregos
O problema transcende a esfera judicial. A Vinícola Guatambu, na Campanha Gaúcha, decidiu abandonar os herbicidas hormonais em suas lavouras de soja após os primeiros sinais de contaminação em seus vinhedos em 2017. Mesmo com práticas de agricultura regenerativa, os herbicidas dos vizinhos continuam a afetar as videiras. Valter Pötter, sócio da empresa, ressalta a pressão política em torno da soja, produto de grande importância econômica. Gabriela Pötter, enóloga da vinícola, aponta que as videiras, apesar de ocuparem uma área menor, representam cerca de 25% do faturamento da propriedade e geram significativamente mais empregos por hectare em comparação com a soja. A professora Shana Sabbado Flores, coordenadora da pesquisa, alerta que a destruição dos vinhedos impacta diretamente a geração de renda e empregos.
Variedades Sensíveis e Outras Culturas Afetadas
Os herbicidas hormonais, como os à base de 2,4-D, agem simulando o hormônio de crescimento das plantas, desregulando seu metabolismo, deformando folhas e reduzindo a capacidade de fotossíntese. Isso leva à diminuição da produção de uvas e, a longo prazo, à morte dos vinhedos. Leonardo Cury, especialista em fisiologia da videira, explica que a planta definha ano a ano até deixar de produzir. O problema não se restringe à Campanha; o Vale Central também sofre com perdas significativas. A Vinícola Velho Amâncio, por exemplo, já perdeu 80% de sua capacidade produtiva. Aline Fogaça, proprietária, ressalta que o herbicida não permanece na planta, não oferecendo risco à saúde, mas afeta outras culturas como maçã, azeitona e nozes-pecã. Variedades de uvas brancas, como a Gewürztraminer, mostram-se particularmente sensíveis, levando produtores a arrancarem parreirais inteiros, como no caso da enóloga Rosana Wagner, que reduziu drasticamente sua área de cultivo.
Fonte: neofeed.com.br

