Nutrição: O Elo Perdido no Cuidado Oncológico do SUS
Apesar dos avanços significativos no diagnóstico e tratamento do câncer, a terapia nutricional especializada permanece como um ponto cego no cuidado oncológico oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil. Estudos e consensos científicos internacionais reforçam a importância crucial da nutrição, especialmente por meio de suplementação oral, para melhorar desfechos clínicos, qualidade de vida e a própria tolerância aos tratamentos. No entanto, barreiras estruturais e regulatórias impedem que esse cuidado essencial chegue de forma efetiva a todos os pacientes que dele necessitam.
Evidências Claras: Nutrição Melhora Resultados e Reduz Custos
A literatura científica mais recente demonstra inequivocamente que a terapia nutricional, incluindo a suplementação, pode promover ganho de peso, reduzir a fadiga, atenuar a perda de massa muscular e diminuir as taxas de hospitalização. Estratégias com alto teor proteico, por exemplo, auxiliam pacientes a atingir as recomendações nutricionais essenciais, sustentando a resposta terapêutica. Do ponto de vista sistêmico, intervenções nutricionais precoces estão associadas à redução de complicações, melhora de desfechos clínicos e maior eficiência econômica para os sistemas de saúde, diminuindo o tempo de internação e a necessidade de cuidados intensivos. A alegação de alto custo, portanto, já não se sustenta frente aos benefícios comprovados.
A Lacuna Entre o Saber e o Fazer no SUS
O Brasil possui normativas que preveem a terapia nutricional como parte do cuidado integral em oncologia, e o princípio da integralidade no SUS está consolidado. Contudo, observa-se um descompasso alarmante entre o que está estabelecido em políticas públicas e a realidade vivenciada pelos pacientes. Muitos serviços oncológicos ainda não conseguem ofertar nutrição especializada de forma regular, não por falta de capacidade técnica, mas por entraves regulatórios, limitações de habilitação e, principalmente, pela não implementação efetiva de políticas já pactuadas. Essa lacuna é ainda mais crítica em regiões do país onde o acesso à terapia nutricional é praticamente inexistente na rede pública, gerando desigualdades gritantes e impactando diretamente a vida de pacientes em maior vulnerabilidade.
Urgência na Implementação: Decisão e Prioridade em Jogo
A ausência de uma terapia nutricional adequada pode redefinir o desfecho do tratamento oncológico. A desnutrição compromete a tolerância às terapias, aumenta a toxicidade, eleva o risco de infecções e frequentemente leva à interrupção de protocolos que poderiam ser mantidos. Em muitos casos, a limitação do tratamento não reside na terapêutica em si, mas na incapacidade do paciente de sustentá-la devido à sua condição clínica precária. Não se trata de falta de recurso, mas de prioridade. O Brasil precisa transformar o consenso científico e as diretrizes claras em implementação efetiva e coordenada entre União, Estados e municípios. Garantir a terapia nutricional como parte estruturante do cuidado oncológico no SUS é um imperativo ético e uma questão de direito à vida, que não pode mais ser adiada.
Fonte: futurodasaude.com.br

