Saúde Suplementar no Brasil: Presidente da Unimed Alerta para Crise de Sustentabilidade e Necessidade de Reequilíbrio
Omar Abujamra Junior, da Unimed do Brasil, aponta desafios regulatórios e de uso que ameaçam o futuro dos planos de saúde, defendendo um modelo mais equilibrado entre direito individual e coletivo.
O setor de saúde suplementar no Brasil atingiu um “ponto de inflexão”, segundo o diretor-presidente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), Wadih Damous. Omar Abujamra Junior, presidente da Unimed do Brasil, concorda com o diagnóstico e destaca que o principal desafio é a expansão contínua das obrigações assistenciais em um cenário de crescente perda de previsibilidade econômica e regulatória, fundamental para a sustentabilidade de qualquer sistema de gestão de riscos.
Fragilização da Previsibilidade e Impacto Regulatório
A previsibilidade, essencial para a precificação de contratos e constituição de reservas, tem sido fragilizada. A Lei nº 14.307, de 2022, que obriga a incorporação ao Rol da ANS, em até 60 dias, de tecnologias aprovadas pela Conitec para o SUS, embora reduza o tempo de espera para o paciente, pressiona a sinistralidade e a previsibilidade econômica das operadoras. Abujamra critica essa lógica regulatória que prioriza o direito individual em detrimento da sustentabilidade coletiva, pois a ampliação de obrigações não é acompanhada por mecanismos que recomponham o equilíbrio econômico-financeiro das operadoras. O reajuste de 5,11% previsto para 2026, por exemplo, não considera a heterogeneidade das carteiras e penaliza operadoras menores.
Transformação no Perfil de Uso e Pressão na Base da Pirâmide
Além das questões regulatórias, o perfil de utilização da saúde suplementar está em profunda transformação. Dados do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) revelam que, em 2023, a Variação de Custos Médico-Hospitalares (VCMH) entre beneficiários de 0 a 18 anos foi de 32,7%, superando os 7,8% registrados entre os idosos. Essa mudança é parcialmente atribuída à Resolução Normativa nº 541/2022 da ANS, que tornou ilimitadas as sessões de fonoaudiologia, psicologia, terapia ocupacional e fisioterapia, sem garantir critérios clínicos claros ou mecanismos de uso adequado dos recursos. Essa expansão do acesso individual, sem mecanismos para preservar a sustentabilidade coletiva, sobrecarrega a faixa produtiva central, que precisa financiar tanto a longevidade no topo quanto a complexidade terapêutica na base da pirâmide etária.
Inovação e Inteligência Artificial como Ferramentas de Eficiência
Diante desse cenário de pressão e imprevisibilidade, a inovação e a inteligência artificial surgem como ferramentas estratégicas, embora não sejam a solução completa. O IESS estima que fraudes e desperdícios consumam cerca de R$ 28 bilhões anuais dos gastos assistenciais. A tecnologia pode reverter essa ineficiência através de sistemas integrados de informação, reduzindo em até 35% o tempo de análise de dados em auditorias. O Sistema Unimed tem utilizado a tecnologia para identificar anomalias de faturamento e padronizar evidências clínicas, garantindo que cada investimento resulte em desfechos reais para o paciente e protegendo a sustentabilidade.
A Necessidade de Reequilíbrio e Diálogo para o Futuro
Abujamra enfatiza que a inovação é parte da solução, mas não substitui a necessidade de reequilibrar as bases que sustentam a saúde suplementar. Para garantir a viabilidade do setor, é indispensável assegurar previsibilidade regulatória, equilíbrio atuarial e responsabilidade financeira. Ele defende que o debate sobre o futuro dos planos de saúde seja conduzido com base em evidências, diálogo técnico e compromisso com a sustentabilidade de longo prazo, buscando conciliar a ampliação do acesso, a incorporação de inovação e a qualidade assistencial para os mais de 50 milhões de brasileiros que dependem desse sistema.
Fonte: futurodasaude.com.br

