Cultura de não relatar panes comprometeu segurança
Um relatório divulgado pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) aponta 19 falhas graves que teriam contribuído para o acidente aéreo que vitimou 62 pessoas. Segundo o investigador tenente-coronel Mendes Fróes, uma cultura de não relatar panes na Voepass impedia que as aeronaves fossem devidamente inspecionadas e reparadas. Falhas recorrentes no sistema de degelo (Airframe De-Icing), essenciais para a segurança em condições de frio, não foram formalmente registradas no diário de bordo, impedindo a manutenção de agir corretivamente.
Alertas ignorados e decisões críticas sob pressão
Nos três voos anteriores ao acidente, a aeronave apresentou múltiplos alertas e falhas relacionadas ao sistema de degelo, além de um desempenho degradado. Em uma das ocasiões, o sistema de proteção contra estol (Stick Pusher) foi acionado 16 vezes, sem que nenhum desses eventos fosse reportado. A investigação também destacou que a tripulação não reconheceu adequadamente a gravidade das condições de gelo encontradas, nem respondeu de forma apropriada aos alertas durante o voo. Falhas no planejamento, julgamento de pilotagem, coordenação de cabine e processo decisório foram identificadas, agravadas por uma elevada carga de trabalho que pode levar à perda de consciência situacional dos pilotos.
Componentes defeituosos e manutenção sem supervisão
O relatório do Cenipa também revelou a utilização de componentes com histórico conhecido de defeitos e a ocorrência de situações de manutenção sem a supervisão adequada. Esses fatores adicionam mais uma camada de fragilidade aos procedimentos operacionais da companhia aérea.
Anac sob escrutínio por falhas no gerenciamento de riscos
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) também foi avaliada na investigação. Embora a agência tenha, ao longo do tempo, identificado fragilidades nos controles de manutenção da Voepass, liberações técnicas irregulares e outros riscos operacionais, o Cenipa concluiu que essas condições latentes não foram devidamente incorporadas aos processos de gerenciamento de risco da Anac. A falta de mecanismos mais eficazes de monitoramento e mitigação permitiu a continuidade das operações da companhia, mesmo diante da deterioração dos níveis de segurança. As não conformidades identificadas pela Anac e a degradação técnica da empresa não foram suficientes para subsidiar decisões regulatórias que pudessem interromper o avanço dos riscos à segurança operacional.
Fonte: viva.com.br

