A Arte que Floresceu no Doméstico
Por muito tempo, os trabalhos de Margarida L. Kanciukaitis Pandolfo ficaram restritos ao ambiente doméstico. Seus bordados em ponto cruz, repletos de motivos florais e padrões geométricos, eram parte integrante de sua rotina como mãe de quatro filhos e trabalhadora. No entanto, o que era visto por muitos como um artesanato familiar, carregava em si um valor artístico que Margarida, diferentemente de muitas mulheres de sua geração, percebia.
Apenas aos 61 anos, Margarida começou a ter sua produção artística reconhecida e inserida no circuito de galerias e museus. Sua trajetória é um testemunho de como a arte, muitas vezes, encontra seu espaço em meio às demandas da vida cotidiana, e como o reconhecimento pode chegar mesmo após décadas de dedicação.
Um Legado Cultural e Familiar em Ponto Cruz
O bordado, aprendido com sua avó Ona, era para Margarida e sua família uma forma de manter viva a herança cultural lituana. Em uma época onde a língua e outras tradições podiam se perder com a imigração, o bordado se tornava um elo material com as raízes, um elemento de memória afetiva e identidade. A pesquisadora Ana Paula Cavalcanti Simioni, da USP, destaca que Margarida foi uma exceção, pois muitas mulheres que bordavam não o faziam com a intenção de criar arte, mas sim por uma questão de educação e imposição de valores femininos.
“Margarida foge um pouco à regra porque entendia que seu trabalho tinha valor artístico”, explica Simioni, ressaltando a importância da preservação de sua obra, em contraste com tantos outros trabalhos de bordadeiras de sua época que se perderam.
O Renascimento Artístico e a Parceria com os Osgêmeos
O ponto de virada na carreira de Margarida ocorreu no início dos anos 2000. Quando os Osgêmeos, filhos de Margarida e já artistas renomados internacionalmente, propuseram que ela reinterpretasse um de seus desenhos em ponto cruz. A obra resultante, “A Moça, a Borboleta e o Querubim”, foi selecionada para a Bienal Naïf de Piracicaba, abrindo as portas para o mundo da arte.
A partir daí, Margarida embarcou em uma colaboração artística com os filhos, transformando desenhos dos Osgêmeos e suas próprias criações em bordados que circularam em exposições no Brasil e no exterior. Gustavo Pandolfo, um dos Osgêmeos, relembra com carinho: “Eu acho que ela sempre se enxergou como uma artista. Ela só precisava encontrar esse tempo para começar.”
Uma Exposição Póstuma Celebra Seus Sonhos
Pouco antes de seu falecimento, aos 82 anos, em 3 de agosto deste ano, Margarida teve a emoção de ver uma exposição inteiramente dedicada à sua obra: “Assim bordei meus sonhos”. Em cartaz no Museu da Imigração de São Paulo até 6 de outubro, a mostra reúne cerca de 100 bordados, além de fotos, documentos e vídeos que narram sua trajetória e a história de sua família. A exposição, realizada em parceria com o consulado da Lituânia, foi recebida com grande entusiasmo por Margarida, que, mesmo hospitalizada, se agarrou à oportunidade.
“Minha mãe ficou superempolgada. Se agarrou à exposição. Foi o melhor remédio”, conta Gustavo Pandolfo. A exposição é uma homenagem à mulher por trás dos bordados, à mãe que, nas palavras de Gustavo, “bordou não só o trabalho dela, mas bordou quatro filhos, bordou uma história muito linda”.
Fonte: neofeed.com.br

