Árbitras quebram barreiras: Daiane Muniz e Charly Deretti estreiam na Série A masculina e abrem debate sobre machismo no futebol
A ascensão de Daiane Muniz e Charly Deretti ao posto de árbitras principais na Série A do Campeonato Brasileiro masculino marca um momento crucial para a representatividade feminina no futebol. Pela primeira vez em suas carreiras, elas apitarão jogos da elite masculina, um feito que até então era raro, com apenas Edina Batista tendo alcançado esse patamar nos últimos sete anos.
Um longo caminho para a igualdade no apito
A trajetória para que mulheres comandem partidas de futebol masculino de alto nível tem sido árdua. As regras do esporte não impõem restrições de gênero, exigindo apenas que os árbitros passem pelos rigorosos testes físicos da FIFA e demonstrem conhecimento e autoridade na aplicação das leis do jogo. No entanto, na prática, a presença feminina no comando de jogos de elite avançou de forma lenta e gradual.
Foram mais de quatro décadas desde o início do Campeonato Brasileiro masculino (em 1970) até que Silvia Regina de Oliveira apitasse sua primeira partida da Série A, em 2003. Após ela, Edina Batista foi a única a atingir esse nível em 2019. Agora, Daiane e Charly se juntam a esse seleto grupo, impulsionando a nova geração de mulheres preparadas para suceder Edina e ampliar a presença feminina no apito.
Daiane Muniz e Charly Deretti: pioneiras em campo
Daiane Muniz, que teve passagens pela Copa do Mundo Feminina de 2023 e pelos Jogos de Paris-2024, comandará a partida entre Chapecoense e Bahia. Já Charly Deretti apitará o confronto entre São Paulo e Coritiba. A escalação de ambas representa uma vitória contra anos de barreiras e episódios de machismo. Um exemplo recente foi a crítica feita a Daiane por um jogador do Bragantino no início do ano, que minimizou sua capacidade por ser mulher. O episódio gerou repúdio e reforçou a necessidade de combater o preconceito no esporte.
O “teto de vidro” da arbitragem e a realidade dos dados
Apesar dos avanços, dados de pesquisas indicam que as mulheres ainda ocupam mais posições de apoio do que de comando em partidas de maior visibilidade. Um estudo que analisou jogos dos Campeonatos Brasileiros masculino e feminino entre 2019 e 2024 revelou que a presença feminina na arbitragem cresce lentamente e sob uma lógica de “inclusão hierarquizada”, com mais espaço nas laterais do campo e menos no comando central. A resistência a escalar mulheres em competições de maior prestígio e impacto econômico é evidente. A consolidação dessas mudanças depende de oportunidades regulares e critérios de escalação mais transparentes, rompendo assim o “teto de vidro” do apito principal.
Histórico de lutas e conquistas femininas no apito
A história da arbitragem feminina no Brasil é marcada por uma longa luta contra o machismo e a discriminação. Desde o início da década de 1970, com Lea Campos precisando de autorização presidencial para apitar, até Cláudia Vasconcellos Guedes se tornar a primeira árbitra reconhecida pela FIFA em 1983, o caminho tem sido árduo. Mais recentemente, Ana Paula Oliveira, em 2005, atuou como assistente na Copa Libertadores masculina, mas enfrentou objetificação após um episódio em 2007. A consolidação do espaço feminino no futebol de mulheres, através de políticas institucionais, contrasta com a lenta evolução no masculino, evidenciando a necessidade de políticas mais assertivas para garantir a igualdade de oportunidades no topo da pirâmide esportiva.
Fonte: neofeed.com.br

