A Luta Pela Verdade em um Campo de Batalha de Informação
Em meio ao conflito devastador que assola o Sudão, jornalistas locais enfrentam perigos extremos para reportar a realidade, enquanto se veem imersos em um cenário de intensa propaganda e desinformação. Organizações como a Beam Reports, fundada em Cartum e agora operando a partir de Nairóbi, alertam para o uso cada vez mais sofisticado de inteligência artificial para disseminar notícias falsas, dificultando a verificação dos fatos. Para combater essa onda de manipulação, 20 veículos de comunicação independentes sudaneses formaram o Fórum de Mídia do Sudão, uma aliança dedicada a defender a liberdade de imprensa e combater o discurso de ódio e a desinformação.
Infraestrutura Destruída e Vidas em Risco
A guerra deixou um rastro de destruição para a mídia sudanesa: o Sindicato dos Jornalistas Sudaneses relatou que 90% das instituições de mídia foram danificadas ou completamente destruídas. Desde o início do conflito, 32 jornalistas foram mortos, e muitos outros sofreram agressões, detenções, tortura e sequestros. Casos como o de Halima Idris Salim, atropelada por forças paramilitares enquanto cobria as condições de um hospital, e Yahya Hamad Fadlallah, preso e torturado, ilustram a brutalidade enfrentada pelos profissionais. O sequestro de Muammar Ibrahim, correspondente da Al Jazeera, por alegar reportagens “tendenciosas”, adiciona mais um capítulo sombrio à perseguição à imprensa.
A Busca Por Atenção Internacional
Muitos jornalistas sudaneses sentem que o sofrimento e os esforços de reportagem de dentro do país passam despercebidos pela comunidade internacional. Uma carta aberta publicada no jornal francês Le Monde por 10 repórteres que permaneceram no Sudão apelou por uma mobilização global para apoiar aqueles que arriscam suas vidas para informar o mundo. A cobertura internacional, por sua vez, enfrentou inúmeros obstáculos. Organizações regionais e internacionais tiveram que improvisar, com muitos correspondentes confinados em áreas restritas. A dificuldade de acesso ao país, com vistos frequentemente negados para jornalistas estrangeiros, limitou a cobertura, tornando a entrada de repórteres como Yousra Elbagir, da Sky News, uma exceção notável.
O “Esquecimento” do Sudão e a Luta Contínua
A atenção global ao Sudão diminuiu drasticamente após os ataques de 7 de outubro de 2023 em Israel, um fenômeno que especialistas chamam de “hierarquias de visibilidade” nos ecossistemas de mídia. Artigos de opinião, como o publicado no The New York Times intitulado “A guerra que o mundo esqueceu”, lamentaram a cobertura insuficiente e alertaram para o risco de o mundo se tornar “testemunha silenciosa de um genocídio”. Embora a retomada de escritórios de mídia estatais em março de 2024 e a concessão de mais vistos a jornalistas estrangeiros tenham trazido algum alívio, acompanhar as tropas se tornou a forma mais segura, porém controlada, de reportar. A morte do tenente-coronel Hassan Ibrahim, que facilitava o acesso da mídia estrangeira, em um ataque de drone, ressalta os perigos persistentes. Com cortes de financiamento para a mídia pública dos EUA, a capacidade de cobrir crises como a do Sudão é ainda mais comprometida. Jornalistas como Mohamed Eltayeb estimam que apenas 10% desta guerra foi efetivamente coberta, levantando a questão: se uma das maiores crises humanitárias da história não garante cobertura robusta, o que justificaria?
Fonte: www.poder360.com.br

