Um Novo Olhar para o Tratamento Oncológico
A jornada do paciente com câncer está passando por uma revolução. Com os avanços científicos e novas terapias, a expectativa de vida e a qualidade de vida de pacientes oncológicos têm aumentado significativamente. Esse cenário promissor abre portas para inovações em cuidados de suporte, que vão além da medicação tradicional e buscam atender às necessidades integrais do paciente. Intervenções farmacológicas e não farmacológicas, como dermocosméticos, roupas especiais e suporte nutricional, estão ganhando destaque.
Esses novos produtos visam controlar sintomas e manter o bem-estar durante o tratamento, reposicionando o cuidado para ir além do tumor. O desenvolvimento dessas soluções é impulsionado por uma escuta ativa das necessidades dos pacientes. No Brasil, a relevância do tema é crescente, com o Instituto Nacional de Câncer (Inca) projetando 781 mil novos casos de câncer por ano até 2028.
Foco na Qualidade de Vida e Bem-Estar
“Historicamente, o foco sempre esteve em como aumentar a sobrevida do paciente, enquanto as demais necessidades ficavam em segundo plano. Mas é uma realidade que começa a mudar a partir do momento em que o nosso olhar para esse paciente também muda”, explica Bernard Prado, oncologista do Einstein especializado em cuidados paliativos e de suporte. “O desejo não se limita mais a só controlar a doença do paciente, mas também permitir que ele viva razoavelmente bem com ela.”
Tratamentos como quimioterapia e radioterapia, embora essenciais, frequentemente causam efeitos adversos devido ao seu impacto em células saudáveis. Mesmo terapias mais modernas, como as-alvo e imunoterapia, ainda podem gerar sintomas como lesões na pele e mucosas, vômitos e alterações na percepção de cheiros e sabores. Um estudo de 2024 no Journal of the American Academy of Dermatology indicou que até 75% dos pacientes oncológicos enfrentam efeitos dermatológicos adversos, como erupções cutâneas e pele seca. Anteriormente, as únicas alternativas eram reduzir a dose do tratamento ou interrompê-lo.
Inovação em Roupas e Dermocosméticos
A crescente participação do paciente em seu próprio cuidado tem elevado a importância da experiência global durante o tratamento. Um exemplo prático é o desenvolvimento de roupas adaptadas. Queixas sobre a dificuldade de usar roupas comuns para exames e tratamentos que exigem cateteres, drenos e sondas são comuns. Além disso, alterações na percepção de temperatura, como ondas de calor e calafrios, afetam o conforto. A necessidade de usar camisolas hospitalares pode impactar a identidade e o bem-estar emocional do paciente.
Samanta Leal, paciente oncológica, fundou a OncoClothes, uma marca de roupas com design pensado para pacientes oncológicos, acamados e pessoas com deficiência. A ideia surgiu de uma necessidade pessoal: a dificuldade em acessar uma veia para medicação devido à roupa. Os produtos da OncoClothes, feitos predominantemente em algodão para reduzir a irritabilidade, buscam ter o aspecto de roupas comuns, afastando a imagem hospitalar. O portfólio inclui calças com abertura lateral, pijamas com acesso para sondagem, blusas com zíper e moletons com bolsos para drenos.
A marca desenvolve novas peças a partir do feedback direto dos pacientes, abordando questões como o frio em salas de quimioterapia e o desconforto com cateteres. Leal destaca que, apesar da demanda, o cenário de cuidado de suporte no Brasil ainda avança lentamente, com desafios para encontrar parceiros e investimentos, pois a inovação não se baseia em alta tecnologia.
Biodiversidade Brasileira e Biotecnologia no Cuidado de Suporte
O oncologista Bernard Prado ressalta o potencial de parcerias para impulsionar inovações, seja por meio de patrocínios ou investimentos. Essa colaboração viabilizou a WeCare Skin, uma marca brasileira que utiliza biotecnologia para desenvolver dermocosméticos voltados para pacientes oncológicos. A startup é apoiada pela Eretz.Bio, hub de inovação do Einstein.
Camila Hernandes, gerente de Inovação da Eretz.Bio, afirma que o apoio à WeCare alinha-se à estratégia do Einstein de fomentar soluções que agreguem valor à jornada do paciente. A WeCare oferece linhas para pacientes em quimioterapia e radioterapia, com produtos como sabonetes, hidratantes e géis orais. A estratégia da marca foi buscar na biodiversidade brasileira os princípios ativos necessários, com fórmulas desenvolvidas com base no feedback de pacientes reais para garantir eficácia e tolerância.
A startup agora se prepara para desenvolver insumos biotecnológicos cicatrizantes, que atenderão tanto pacientes oncológicos quanto aqueles com lesões por pressão.
O Futuro do Cuidado de Suporte Integrativo
Hernandes enfatiza que o desenvolvimento de soluções em conjunto com pacientes e em ambientes clínicos aumenta a compreensão das necessidades reais, reduzindo riscos e melhorando o impacto. Pesquisas na área de suporte já demonstram o impacto positivo de intervenções como o suporte psicossocial e nutricional, que podem levar a um aumento na sobrevida, possivelmente pela melhor condição física do paciente para tolerar o tratamento.
A tendência é a expansão de intervenções integrativas não farmacológicas com efeitos comprovados cientificamente, como meditação, yoga e acupuntura. “A expectativa é de um crescimento acelerado e maior investimento nessa área não farmacológica, até porque o remédio para efeito colateral também pode ter um efeito colateral”, conclui Prado.
Fonte: futurodasaude.com.br

