O Crescente Uso da IA na Busca por Bem-Estar Mental
A inteligência artificial generativa, popularizada por plataformas como o ChatGPT, tem se tornado uma ferramenta cada vez mais presente na vida das pessoas, inclusive naquelas que buscam apoio para a saúde mental. Um levantamento da Harvard Business Review aponta “terapia e companhia virtual” como o principal uso da IA em 2025, evidenciando uma demanda crescente por esse tipo de suporte. Diante desse cenário, a Organização Mundial da Saúde (OMS) promoveu debates com especialistas para discutir o tema e elaborar recomendações, focando na inclusão de elementos de saúde mental nas avaliações de impacto e no design das ferramentas, com a participação de profissionais e usuários.
Potencial de Apoio, Mas Não de Substituição
Psicólogos reconhecem o valor que as ferramentas de IA podem agregar ao tratamento psicológico, atuando como um complemento e não como substitutas. “A inteligência artificial é uma aliada no desempenho de vários trabalhos, e não será diferente na psicologia. Ela pode contribuir com o diagnóstico e o tratamento de casos complexos”, afirma Antônio Virgílio Bastos, conselheiro do Conselho Federal de Psicologia (CFP). No entanto, ele ressalta a inviabilidade de substituir um profissional devido às limitações atuais da tecnologia. Healthtechs brasileiras como Zenklub e Vittude já exploram o uso de chatbots para demandas menos complexas, engajamento de pacientes e triagem inicial, buscando otimizar o acesso à psicoterapia. Luckas Reis, da Vittude, destaca a importância de ferramentas acessíveis para lidar com a solidão e a fragilidade das relações sociais modernas, mas enfatiza que “o mesmo vale para o ChatGPT”.
Riscos e Limitações da IA em Contexto Terapêutico
Leonardo Martins, professor de psicologia clínica da PUC-Rio, alerta que as IAs generativas não foram projetadas com foco em saúde mental e, por isso, carecem de aspectos essenciais para lidar com a complexidade desse campo. “Não existem estudos científicos que demonstrem, por exemplo, a eficácia dessas ferramentas em termos de resultados em saúde mental a longo prazo”, observa Martins. Um dos principais riscos apontados é o afastamento de tratamentos eficazes, com a IA, por ser treinada para reforçar a opinião do usuário, podendo inadvertidamente incentivar comportamentos prejudiciais. Além disso, a falta de compreensão de nuances emocionais e contextos é uma barreira significativa. Bastos complementa que o processo terapêutico real muitas vezes exige confronto e desafio, algo que a IA, focada em compreensão e repetição, não pode oferecer.
O Caminho para o Uso Responsável e Ético
O Conselho Federal de Psicologia defende o diálogo interinstitucional e transdisciplinar para moldar o uso da IA na saúde mental, incentivando o desenvolvimento de tecnologias que respeitem a diversidade cultural e subjetiva do Brasil. A perspectiva futura aponta para o desenvolvimento de chatbots especializados como auxiliares terapêuticos, sempre sob a supervisão de um profissional. “Mesmo com o apoio de uma inteligência artificial, a responsabilidade técnica e ética é de um profissional”, garante Bastos. Aplicações de IA podem servir como elementos adjuntos para encaminhamento ou triagem, mas nunca como substitutos. “Estamos distantes de uma IA que tenha a capacidade de fazer uma análise do que chamamos de modelo de mundo”, conclui Martins.
Experiências e Desafios das Healthtechs
Empresas como Vittude e Zenklub buscam usar a IA para democratizar o acesso à saúde mental. A Vittude desenvolve um projeto-piloto de chatbot para triagem e encaminhamento de pacientes, visando identificar casos que necessitam de maior atenção e agilizar o atendimento com psicólogos. Rui Brandão, fundador da Zenklub, menciona a assistente virtual Clari, que já auxilia usuários a encontrar profissionais e oferece dicas de controle de sintomas. Ele vê a IA como uma “primeira porta de entrada de engajamento”, disponível 24 horas, para oferecer um acolhimento inicial. O próximo passo, segundo ele, é usar IA generativa para auxiliar os profissionais no diagnóstico e tratamento, sem, contudo, diminuir a importância do terapeuta. O ChatGPT, nesse contexto, pode ser uma ferramenta para organizar ideias e acelerar a comunicação com o especialista. Ambas as empresas não observaram queda nas consultas devido ao ChatGPT, mas notam a crescente adoção da IA por profissionais e pacientes, o que pode ser tanto benéfico quanto arriscado. Há relatos de profissionais utilizando IA para educar pacientes sobre gatilhos graves, instruindo-a a não dar conselhos, mas a encaminhar para um profissional. Contudo, casos de pacientes com quadros críticos, como surtos psicóticos e paranoia, associados à hiperutilização de agentes de IA, têm surgido e preocupam a comunidade clínica.
Fonte: futurodasaude.com.br

