O Desafio da Adesão ao Tratamento da Hipertensão no Brasil
Um cenário alarmante se desenha no Brasil: estima-se que cerca de 20 milhões de hipertensos não sigam o tratamento médico corretamente. Essa falta de adesão é a principal barreira para o controle da pressão arterial, elevando significativamente o risco de complicações graves como infartos, derrames (AVC) e até mesmo a morte. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já apontava, há mais de duas décadas, o impacto profundo da hipertensão na vida das pessoas, associando-a a sofrimento, desespero e pobreza, caso suas consequências não sejam minimizadas.
Por Que Milhões Falham no Tratamento?
A adesão ao tratamento da hipertensão é um desafio multifatorial. A complexidade do regime medicamentoso, que muitas vezes exige a combinação de diversos comprimidos, é um dos principais obstáculos. Estudos demonstram que quanto maior o número de medicamentos prescritos, menor a probabilidade de o paciente seguir as orientações. Outros fatores cruciais incluem a baixa literacia em saúde, o acesso limitado a tecnologias e informações, o custo dos medicamentos e as próprias condições de saúde dos pacientes. Na prática, isso se traduz em esquecimento da medicação, crença equivocada de que o remédio não é mais necessário pela ausência de sintomas, dificuldade em se ausentar do trabalho para consultas e, em muitos casos, a indisponibilidade do medicamento no sistema público de saúde, forçando a compra particular.
O Impacto da Falta de Adesão nas Estatísticas
A consequência direta da baixa adesão é o aumento das hospitalizações, morbidade e mortalidade por doenças cardiovasculares. Pacientes que não aderem à terapia têm um risco substancialmente maior de eventos cardiovasculares. Uma pesquisa italiana, por exemplo, revelou que aqueles com boa adesão (uso de medicamentos em mais de 75% dos dias) apresentaram uma redução de 4 a 7 vezes no risco de infarto e AVC em comparação com pacientes com baixa adesão. No Brasil, um estudo da Universidade de São Paulo ilustra a gravidade do problema: enquanto 90,1% dos hipertensos afirmaram tomar seus remédios, a substância foi detectada na urina de apenas 32,4%, indicando uma disparidade gritante entre o que é prescrito e o que é realmente consumido.
Soluções Estruturais para um Problema Complexo
A nova Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial, lançada em 2025, propõe uma abordagem inovadora: tratar a doença no ambiente em que ela se manifesta, considerando os determinantes sociais. Aumentar a adesão pode ter um impacto mais significativo na saúde pública do que melhorias pontuais nos tratamentos. Estratégias eficazes incluem o apoio de farmacêuticos e agentes comunitários de saúde, iniciativas educativas, o incentivo à automedida da pressão arterial e o uso de ferramentas digitais, como aplicativos e mensagens de texto, para auxiliar os pacientes a não esquecerem seus medicamentos. A disponibilização de medicamentos em comprimido único pelo Sistema Único de Saúde (SUS) é outra medida destacada. A combinação dessas ações pode elevar a adesão em até 67%.
Equidade e Eficiência no Cuidado Cardiovascular
Considerando que a maioria dos hipertensos no Brasil é acompanhada pelo SUS, o fortalecimento das estratégias de adesão é um passo fundamental para reduzir desigualdades na saúde cardiovascular. Um aumento de apenas 20% na adesão ao tratamento foi associado a uma redução de 17% no risco de AVC e 12% no risco de mortes. Portanto, focar na adesão não apenas melhora a qualidade de vida dos pacientes, mas também diminui a sobrecarga nos serviços públicos e caminha em direção a um cuidado mais equitativo, resolutivo e com maior qualidade, contribuindo efetivamente para a diminuição da morbidade e mortalidade por doenças cardiovasculares no país.
Fonte: futurodasaude.com.br

