Retomada Frustrada e Drawdown Histórico
A esperança de um 2026 positivo para os fundos multimercados, que vinham de uma crise que retirou R$ 790 bilhões da indústria nos últimos quatro anos, foi abruptamente interrompida no final de fevereiro. Os ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã desestabilizaram o mercado financeiro global e tiveram um impacto significativo na rentabilidade das carteiras. Em um momento em que alguns gestores começavam a vislumbrar uma recuperação, impulsionada pela perspectiva de queda de juros no Brasil, o conflito no Oriente Médio pegou a maioria desprevenida.
Um levantamento da consultoria Elos Ayta, realizado a pedido do NeoFeed com um grupo dos 264 maiores fundos multimercados, revelou que 71% apresentaram desempenho negativo entre 28 de fevereiro e 16 de março. Apenas cerca de um quarto dos fundos registrou retornos positivos considerados relevantes no período, com uma mediana negativa de 1,19%. Gestoras como Vista Capital, Mar Asset Management, Kapitalo e Ibiuna figuraram entre as com os piores resultados.
Outro estudo, conduzido pela Bradesco Asset, aponta que a indústria de multimercados sofreu o segundo pior drawdown de sua história: uma perda de 4,06% em apenas duas semanas, entre 6 e 13 de março. Este resultado fica atrás apenas do início da pandemia de Covid-19, em 2020, quando a queda foi de 10,42% no mesmo período.
O Impacto Geopolítico e a Mudança de Cenário
A eclosão da guerra e o consequente choque na oferta de petróleo alteraram rapidamente o cenário econômico. A inflação esperada aumentou, as curvas de juros futuros subiram e o dólar se valorizou. Até mesmo os metais preciosos, que apresentavam trajetória de alta, registraram quedas, com investidores realizando lucros. Segundo Marcelo Mello, CEO da SulAmérica, o episódio evidenciou o grau de otimismo e o posicionamento da indústria em relação aos juros locais. “A maioria foi pega superposicionada, e muitos acabaram stopados, devolvendo os ótimos ganhos acumulados no ano”, afirmou.
Alocadores de recursos consultados pelo NeoFeed destacam que posições alavancadas em juros e apostas na queda do preço do petróleo contribuíram para a velocidade e intensidade das perdas. Fundos como o da Vista Capital registraram quedas superiores a 14%, impactados pela alta do petróleo e posições vendidas em ações da Petrobras. A Kapitalo, que também apostava na queda do petróleo, viu seu fundo Zeta recuar 11%. A Mar Asset e a Ibiuna, por sua vez, foram afetadas por suas posições na curva futura de juros brasileiros e internacionais.
Resiliência e Adaptação: Gestoras que Cruzaram a Turbulência
Em contrapartida, algumas gestoras conseguiram atravessar o período de turbulência com maior resiliência. A JGP, por exemplo, com uma posição contrária no mercado de DI e trades táticos em momentos de maior risco, registrou alta em um de seus fundos. A Verde Asset, de Luis Stuhlberger, manteve uma posição de hedge atrelada à alta da inflação americana, que se mostrou eficaz diante da mudança de cenário.
O Que Esperar Agora? Recomendações para Investidores
Os especialistas consultados pelo NeoFeed são unânimes em afirmar que o recente solavanco na indústria de multimercados tornará a entrega de retornos atrativos mais desafiadora nos próximos meses. A captação líquida, que havia sido positiva em janeiro, pode sofrer uma desaceleração com a possível aceleração de resgates.
A recomendação geral entre os investidores profissionais é evitar resgates neste momento, pois isso significaria cristalizar perdas relevantes. Historicamente, após grandes quedas, os gestores tendem a apresentar retornos superiores ao CDI. No entanto, o consenso é que este não é o momento de aumentar posições, dada a perspectiva de juros elevados por mais tempo e o risco geopolítico.
A diversificação de portfólios e a adaptação às condições de mercado são vistas como essenciais para a consistência de performance. A recomendação é manter a exposição à classe, com alocação moderada, e observar de perto as estratégias adotadas pelos gestores para contornar a situação, em vez de reagir com pânico.
Fonte: neofeed.com.br

