Um Convite à Intimidade Oculta
Em um mundo obcecado pela exposição e validação digital, a exposição “Fotos que nunca serão postadas”, em cartaz no Instituto Via Foto, em São Paulo, propõe uma reflexão profunda sobre as imagens que guardamos em segredo. Curada por Marcello Dantas e Luciana Brafman, a mostra reúne fotografias que, por sua natureza íntima ou por não se alinharem aos padrões estéticos das redes sociais, jamais encontrariam o caminho para o feed. O objetivo é dar visibilidade a esses registros privados, que, segundo os curadores, carregam consigo processos e visões de mundo frequentemente marginalizados.
A Experiência Imersiva: Desconectando para Conectar
Para garantir a preservação da intimidade e incentivar uma imersão genuína, a exposição adota uma medida radical: a proibição do uso de celulares. Ao adentrarem o espaço, os visitantes são convidados a trancar seus aparelhos em armários. As obras, por sua vez, permanecem ocultas sob cortinas, com apenas uma descrição textual como introdução. Essa abordagem permite que cada indivíduo escolha quais imagens deseja revelar, exercendo um controle sobre o ato de ver e preservando o mistério.
Autocensura e a Evolução do Público
A curadoria estabelece um paralelo histórico com a obra “Repressão outra vez – Eis o saldo” (1968) de Antonio Manuel, onde cortinas eram usadas para proteger imagens da censura estatal. Hoje, o uso das cortinas na exposição “Fotos que nunca serão postadas” reflete uma autocensura individual e coletiva, moldada pelas plataformas digitais e por uma nova ética puritana que dita os limites do aceitável. A mostra explora como o conceito de “publicável” se transformou ao longo do tempo, com obras que abordam temas como vulnerabilidade, nudez e a espontaneidade do cotidiano, muitas vezes barradas pelos algoritmos.
Inteligência Artificial e a Subjetividade do Olhar
No processo curatorial, a inteligência artificial foi utilizada para descrever as obras, buscando uma descrição neutra. No entanto, o experimento evidenciou as limitações da tecnologia em decodificar imagens complexas e carregadas de subjetividade, como a representação de uma vulva que foi erroneamente identificada como um cálice. Essa experiência reforça a ideia de que o olhar, mesmo quando supostamente neutro, é sempre influenciado pelo conhecimento empírico e pela cultura. A ausência do celular, por fim, convida a uma contemplação mais atenta e prolongada, devolvendo ao público a experiência de estar verdadeiramente presente diante da arte.
Fonte: neofeed.com.br

