A Dolarização Silenciosa da Ilha
Em Havana, uma transformação econômica sutil, mas profunda, está em curso. A frase “Podem pagar em pesos cubanos ou em dólares” ecoa em estabelecimentos comerciais, sinalizando a consolidação da moeda americana como referência principal de valor, especialmente em negócios privados e áreas turísticas. O que antes era uma prática esporádica tornou-se regra, evidenciando a crescente disparidade entre aqueles com acesso à moeda forte e os que dependem exclusivamente do peso cubano.
Crise Estrutural e o Avanço do Dólar
Cuba atravessa uma crise estrutural prolongada, intensificada desde 2020. A queda na atividade econômica, a baixa produtividade e a pressão sobre o consumo são reflexos de um cenário complexo, marcado pela redução do turismo, restrições externas, baixa produção interna e desequilíbrios macroeconômicos. Nesse vácuo, o dólar ganhou espaço, tornando-se a moeda de fato para muitas transações, apesar do peso cubano ser o único curso legal.
O Mercado Informal e o Custo de Vida
A reforma monetária de 2021, que eliminou o peso conversível (CUC), não conseguiu acompanhar a realidade econômica do país. Atualmente, Cuba opera com uma fragmentação de referências de valor: o câmbio oficial, preços regulados pelo Estado e o mercado informal. Neste último, o dólar dita as regras, com taxas de câmbio que podem chegar a 400-500 pesos cubanos por dólar, um valor significativamente superior às cotações oficiais. Essa dinâmica limita drasticamente o acesso da população a bens básicos, uma vez que salários mínimos e médios, quando convertidos informalmente, equivalem a poucos dólares mensais.
Impacto no Cotidiano e no Setor Privado
A dolarização reconfigurou o setor de serviços. Bicitáxis, por exemplo, antes utilizados majoritariamente por moradores locais, agora integram a economia turística dolarizada, com passeios pela capital ofertados diretamente em moeda estrangeira. Trabalhadores do setor privado e aqueles que recebem remessas do exterior possuem maior acesso ao dólar e, consequentemente, a bens e serviços. Em contrapartida, os trabalhadores do setor estatal permanecem dependentes de um peso cubano que perdeu sua função como reserva de valor. Essa realidade se reflete em práticas informais, como a devolução de trocos em pesos cubanos para que comerciantes retenham a moeda forte, garantindo a reposição de insumos.
Fonte: neofeed.com.br

