Produção Científica Regional: Um Gigante Adormecido
A América Latina, lar de cerca de 8% da população mundial, ostenta uma biodiversidade e riqueza cultural imensuráveis. No entanto, sua contribuição para a produção científica global se restringe a meros 2%. Essa discrepância foi amplamente debatida no evento “Vozes da Ciência Latino-Americana”, promovido pelo Einstein, onde especialistas apontaram para desafios estruturais e a carência de integração regional como os principais entraves para o protagonismo científico da área.
A heterogeneidade dos sistemas de ciência, tecnologia e inovação na região é notória. Enquanto países como Brasil e Argentina se destacam pelo número de pesquisadores, outras nações lutam para atingir patamares mínimos. Instabilidades econômicas, políticas e institucionais, somadas à desigualdade social, impactam diretamente a cultura científica, o financiamento e o desenvolvimento de projetos de longo prazo, resultando em uma inserção desigual no cenário científico internacional.
Colaboração Internacional e a Necessidade de Autonomia
Sidney Klajner, presidente do Einstein, ressaltou que a colaboração internacional da América Latina é intensa, mas predominantemente orientada para o “norte global”. Essa dependência de agendas, redes e financiamentos externos limita a capacidade da região de definir suas próprias pautas e desenvolver uma autonomia científica e tecnológica robusta. “Esse padrão limita a capacidade de definição de agendas próprias e o avanço de uma autonomia científica e tecnológica mais robusta”, analisou Klajner.
Claudio Lottenberg, presidente do Conselho Deliberativo da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein, enfatizou o papel crucial do conhecimento para o progresso da saúde. “Em qualquer lugar do mundo, conhecimento é gerador de melhorias e progressos na saúde. É amplificador de novas descobertas, de acesso e de equidade”, afirmou. Ele vê a pesquisa na América Latina como um potencial protagonista na geração de conhecimentos para enfrentar desafios globais de saúde.
Expertises Regionais e Oportunidades Emergentes
Apesar dos desafios, a América Latina possui fortalezas significativas. A resiliência e adaptabilidade de seus pesquisadores são reconhecidas, alinhadas a um movimento crescente para transformar adversidades em oportunidades. Cristian Morales, representante da OPAS/OMS no Brasil, destacou a nova política de saúde única da OPAS, que posiciona a região favoravelmente para liderar estudos e pesquisas, reconhecendo a interface entre saúde humana, ambiental e animal.
Temas como doenças infecciosas emergentes (dengue, chikungunya), resistência antimicrobiana, demografia dinâmica e mudanças climáticas são áreas onde a região acumula expertise. “A importância da ciência para lidar com essas pressões e para estruturar políticas públicas que respondam às necessidades que mudam são fatores que colocam a América Latina em potencial posição de liderança, um lugar que ainda não foi conquistado”, defendeu Morales.
Fortalecendo Ecossistemas e Construindo Agendas Próprias
O evento promovido pelo Einstein buscou estimular diálogos e colaborações para reorganizar os ecossistemas de ciência, tecnologia e inovação na região. A formação e capacitação de recursos humanos, o fortalecimento de infraestruturas e a criação de novas estruturas de colaboração científica entre os países latino-americanos são vistos como caminhos essenciais. “A ciência latino-americana não é periférica. Ela é necessária, relevante, pois é capaz de contribuir para o futuro da saúde na região e no mundo”, pontuou Fernando Bacal, vice-presidente de Pesquisa e Inovação do Einstein.
A meta é pavimentar um ambiente científico latino-americano mais simétrico, autônomo e com maior impacto social, através de redes de colaboração que promovam o intercâmbio de conhecimento e o desenvolvimento de estratégias alinhadas à realidade regional. Pedro Lemos, diretor de Cardiologia no Einstein, resumiu a necessidade: “As agendas científicas são mundiais, mas, para nós, são importadas. Temos que fazer uma extensão ativa na agenda científica global.”
Fonte: futurodasaude.com.br

