Vulnerabilidade e Resiliência: O Retrato do Envelhecimento Rural no Brasil
Uma pesquisa pioneira, conduzida pelo fisioterapeuta Hércules Campos da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), revela um cenário preocupante para a população idosa rural brasileira. O estudo, que analisou 28 pesquisas sobre o tema, aponta que impressionantes 95,2% dos idosos que vivem em áreas rurais no país convivem com doenças crônicas. Esses dados inéditos expõem uma realidade frequentemente negligenciada pela ciência e pela sociedade, onde a vulnerabilidade extrema se contrapõe a uma notável resiliência, fundamentada na força comunitária.
O Amazonas como “Estado Velho Mais Jovem” e a Transição Demográfica no Norte
Durante sua participação na mesa-redonda “Envelhecimento plural”, no Congresso Norte/Nordeste de Geriatria e Gerontologia (CoNNeGG 2026), Campos apresentou o Amazonas como um exemplo singular do envelhecimento populacional. Ele o descreve como o “Estado velho mais jovem do Brasil”, pois o crescimento relativo do envelhecimento rural é mais acentuado nas regiões Norte e Nordeste. Enquanto outras regiões do país, como Sul e Sudeste, já avançam na transição demográfica, o Norte se prepara para vivenciá-la de forma mais expressiva a partir de 2030. “Para entender o envelhecimento rural, é preciso ir até ele”, enfatiza o pesquisador, ressaltando a necessidade de uma imersão na realidade dessas comunidades.
Barreiras de Acesso e o Papel Essencial do Agente Comunitário de Saúde
O cenário no meio rural é agravado por barreiras geográficas significativas no acesso à assistência médica. Algumas comunidades na Amazônia demandam até 12 horas de barco para alcançar um serviço de saúde. A pesquisa aponta que 99,4% dos idosos rurais não possuem plano de saúde e 71,9% carecem de transporte adequado para buscar atendimento. Nesse contexto, o agente comunitário de saúde (ACS) emerge como um elo fundamental, muitas vezes sendo a única ponte para o cuidado. “O SUS é tudo que o povo do contexto rural tem”, declara Campos, evidenciando a dependência desses indivíduos do sistema público de saúde.
Percepção Precoce da Velhice e a Crítica à “Miopia Geográfica”
A vida dedicada ao trabalho braçal no campo e nas florestas leva a uma percepção precoce da velhice. Para muitos no contexto rural, a velhice pode ser percebida a partir dos 50 anos, devido aos desgastes físicos impostos pelo sol e pelas comorbidades. Campos questiona a aplicabilidade dos conceitos urbanos de envelhecimento para essa população. Além disso, ele critica o termo “remoto” para descrever essas comunidades, classificando-o como uma “miopia geográfica” que se estende à ciência. Essa limitação se reflete em exames cognitivos, onde cerca de 40% dos idosos do interior do Amazonas não atingem a pontuação mínima. O problema, segundo o pesquisador, não reside na capacidade cognitiva, mas nas ferramentas de avaliação, que não são sensíveis à realidade do campo e utilizam imagens urbanas pouco compreensíveis.
Resiliência e Propósito de Vida: A Força da Ligação com o Território
Apesar das adversidades, o estudo ressalta o “paradoxo entre vulnerabilidade e resiliência”. Idosos rurais, majoritariamente de baixa renda, demonstram alta atividade e contam com uma forte rede de solidariedade. A pesquisa revela que aposentados que continuam atividades como pesca ou agricultura possuem um propósito de vida sete vezes maior em comparação aos idosos urbanos, o que pode contribuir para a redução dos níveis de depressão. Essa profunda ligação com o território explica a notável resiliência observada. Quando questionados sobre o desejo de deixar suas comunidades, a resposta é unânime: “Jamais”.
Fonte: viva.com.br

