A Nova Fronteira das Doenças Hepáticas: O Desafio Metabólico
As doenças hepáticas crônicas estão passando por uma transformação significativa. Se antes as hepatites dominavam o cenário, hoje as condições metabólicas, como a Doença Hepática Gordurosa Não Alcoólica (DHGNA), agora denominada Doença Hepática Gordurosa Metabólica (MASLD), e sua sobreposição com o álcool (Met-ALD), emergem como as principais indicadoras de transplante de fígado na Europa e nos Estados Unidos. Essa mudança epidemiológica, impulsionada pela epidemia global de obesidade e diabetes tipo 2, representa um desafio crescente para os sistemas de saúde em todo o mundo.
Sistemas de Saúde Impreparados para a Onda Metabólica
O Dr. Zobair Younossi, presidente do Global NASH/MASH Council e uma autoridade global em hepatologia, expressou preocupação com a capacidade dos sistemas de saúde de lidar com o aumento exponencial de casos de doenças hepáticas metabólicas. “Nossos sistemas de saúde não estão preparados nem para lidar com a ponta do iceberg”, afirmou Younossi em entrevista exclusiva durante o Congresso EASL 2026. Ele destacou a necessidade urgente de maior conscientização entre os profissionais de saúde, a implementação de estratégias eficazes para identificar pacientes de alto risco e a garantia de acesso a tratamentos adequados.
O Impacto Econômico Silencioso
A análise econômica apresentada por Younossi e sua equipe revela um panorama financeiro alarmante. Projeções indicam que os custos diretos e indiretos associados a essas doenças devem dobrar ou triplicar nos próximos 20 anos em nove países analisados, incluindo o Brasil. “Estamos falando de bilhões e bilhões de dólares”, alertou o especialista, ressaltando a urgência de políticas públicas focadas na prevenção, combate ao consumo de ultraprocessados e bebidas alcoólicas, e a promoção de hábitos de vida mais saudáveis.
Avanços Terapêuticos e Tecnológicos na Hepatologia
O futuro do tratamento das doenças hepáticas metabólicas aponta para abordagens personalizadas e inovadoras. Younossi destacou o potencial de medicamentos como os agonistas de GLP-1 para a perda de peso e agonistas do receptor beta do hormônio tireoidiano direcionados ao fígado, como o resmetirom, que demonstram efeitos anti-inflamatórios promissores. A inteligência artificial (IA) surge como uma ferramenta revolucionária, capaz de integrar dados genômicos, clínicos e ambientais para otimizar o diagnóstico, estratificar riscos e personalizar terapias combinadas. Além disso, testes não invasivos estão cada vez mais substituindo a biópsia hepática, tornando o diagnóstico mais acessível e menos invasivo, uma tendência que se consolidou no EASL 2026.
O Papel da IA e a Busca por Dados de Qualidade
Embora a IA ofereça um potencial imenso para aumentar a eficiência no cuidado, auxiliar em diagnósticos complexos e melhorar a consistência das análises de biópsias, Younossi ressalta que a limitação atual reside na disponibilidade de dados de qualidade. “Nossa limitação agora não está tanto na tecnologia da IA em si, mas na falta de dados de qualidade que a IA possa usar para gerar análises”, explicou. Ele enfatizou que, apesar dos avanços tecnológicos, o toque humano e a consideração de valores na tomada de decisões clínicas permanecem insubstituíveis.
Fonte: futurodasaude.com.br

