O Custo Invisível dos Juros Elevados
O cenário econômico brasileiro passou por uma reviravolta dramática. Durante a pandemia de COVID-19, o país experimentou um período de custo de capital historicamente baixo, com juros básicos na casa dos 3% ao ano. Essa conjuntura, aliada à ampla oferta de crédito, incentivou muitas empresas a se endividarem para impulsionar o crescimento, realizar aquisições e expandir sua capacidade produtiva. A matemática era simples: o custo da dívida era significativamente menor do que o retorno projetado para os investimentos.
A Virada do Jogo: Juros Reais Disparam
No entanto, a reprecificação global do dinheiro, somada às dinâmicas internas brasileiras, elevou drasticamente os juros reais para patamares acima de 15% ao ano. Essa mudança impactou diretamente o caixa das empresas, aumentando o custo da dívida e pressionando as margens de lucro. O que antes era um vetor de crescimento, o endividamento, agora se tornou um risco exponencial. Empresas com dívidas elevadas podem ver seus múltiplos de endividamento ultrapassarem o valor do próprio negócio em poucos anos, consumindo o patrimônio dos acionistas.
M&A Defensivo: Uma Nova Realidade no Mercado
Diante desse cenário de alta de juros, o mercado de fusões e aquisições (M&A) no Brasil está mudando de natureza. Empresas que antes não consideravam a venda de seus negócios agora veem as transações como um mecanismo de preservação de valor. O foco deixou de ser maximizar o múltiplo de venda e passou a ser evitar a convergência do valor patrimonial a zero em um horizonte de tempo curto. Este movimento, ainda em estágio inicial, tende a ganhar força à medida que os compromissos financeiros firmados na era do dinheiro barato vencem.
Compradores Estratégicos e a Consolidação Setorial
Do lado dos compradores, observa-se uma diminuição no apetite de fundos de private equity domésticos, que enfrentam uma taxa livre de risco elevada. Em contrapartida, ganham destaque os compradores estratégicos, especialmente multinacionais. Munidas de moedas fortes e maior acesso a capital global, essas empresas enxergam no Brasil uma oportunidade de adquirir ativos a valuations comprimidos. Setores intensivos em capital, como a indústria, são os mais afetados, impulsionando um movimento de consolidação e resultando em estruturas de mercado mais concentradas. Essa consolidação, embora possa trazer ganhos de eficiência, levanta preocupações sobre a redução do dinamismo competitivo e o impacto no emprego e na geração de renda no curto e médio prazo.
Recuperação Judicial: Um Caminho de Último Recurso
Para empresas que não conseguem reestruturar suas dívidas ou realizar uma transação a tempo, a recuperação judicial surge como um mecanismo de ajuste financeiro. Contudo, a realidade é que a maioria dessas empresas não sobrevive a longo prazo. Estudos indicam que apenas cerca de 23% das companhias em recuperação judicial conseguem se restabelecer no longo prazo. A RJ, embora possa oferecer um alívio temporário, frequentemente desloca o foco da gestão para questões financeiras e litígios, limitando o potencial de crescimento futuro.
Preservando Valor em um Novo Cenário Econômico
A discussão sobre acertos ou erros no passado perde relevância diante da nova realidade. A mudança de regime de juros foi mais rápida e intensa do que o esperado. A prioridade agora é reconhecer que o tempo deixou de ser neutro. Em ciclos de desalavancagem, adiar decisões significa transferir valor dos acionistas para credores. Avaliar alternativas estratégicas com antecedência, acessar o mercado de capitais ou de M&A com racionalidade e abandonar a expectativa de um retorno ao passado são passos vitais para a preservação de valor. O Brasil continua sendo um mercado relevante, mas o custo de capital elevado está redesenhando a lógica de formação de valor no país.
Fonte: neofeed.com.br

