Fortalecimento e Investimentos Estratégicos
A Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia (Hemobrás) está no centro de um plano ambicioso para expandir sua capacidade produtiva e incorporar novos processos a partir de 2027. Em um movimento significativo, a estatal assinou um memorando com a chinesa Tiantan, visando transferência de tecnologia e ampliação industrial no país. Essa iniciativa se soma a investimentos recentes, como os R$ 116 milhões do Novo PAC destinados à modernização do armazenamento de plasma e a aquisição de equipamentos para hemocentros. Paralelamente, a discussão sobre a PEC do Plasma, que aborda a possível comercialização do insumo, deve avançar em 2026.
Os últimos anos foram marcados pela inauguração de duas novas fábricas da Hemobrás: em 2024, a unidade para produção do Fator de Coagulação VIII Recombinante entrou em operação com um investimento de R$ 1 bilhão. Em 2025, uma nova fábrica para hemoderivados, com recursos de R$ 1,9 bilhão, foi inaugurada, com capacidade para processar até 500 mil litros de plasma anualmente.
Desafios e Críticas à Produção Nacional
Apesar dos avanços, a Hemobrás ainda enfrenta críticas quanto à sua efetividade e dependência da indústria internacional. Especialistas como o médico sanitarista Gonzalo Vecina apontam que, apesar dos vultosos investimentos, a empresa ainda não atingiu seu potencial máximo. “O fato é que até hoje não funcionou, apesar da quantidade de dinheiro que ela recebeu”, afirma Vecina, defendendo a necessidade de colocar a empresa para funcionar efetivamente com a matéria-prima de qualidade que o Brasil possui.
O professor Dantes Langhi Jr., da Unifesp, classifica os investimentos bilionários como um desperdício, dada a dependência de processos realizados no exterior. Ele critica o que chama de “monopólio anacrônico” da indústria de hemoderivados e sugere a vinculação com a iniciativa privada para maior flexibilidade.
O Futuro da Hemobrás: Novos Processos e Autossuficiência
Melissa Papaléo, gerente de Produtos e Suprimentos farmacêuticos da Hemobrás, projeta uma mudança significativa a partir de 2027. “Vamos começar pela Albumina, no caso dos hemoderivados, e depois vamos incorporando outros produtos”, anuncia. O plano inclui a inspeção da Anvisa para o envase de recombinantes no Brasil, seguido pela produção do Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) no ano seguinte, com a meta de que todos os processos estejam funcionando até 2030.
A meta é que as novas fábricas permitam que a Hemobrás absorva mais etapas do processo produtivo, diminuindo progressivamente as importações. Projeta-se o fracionamento de 650 mil litros de plasma anualmente, com a adição de produtos como o Complexo Protrombínico e o Fator de von Willebrand ao portfólio.
Debate Político e a PEC do Plasma
A PEC do Plasma, que propõe a permissão para a comercialização do plasma humano, divide opiniões. Enquanto alguns senadores, como Humberto Costa, veem a proposta como prejudicial à Hemobrás e à segurança do fornecimento para o SUS, outros, como a relatora Daniella Ribeiro, argumentam que, mesmo com os investimentos, a produção nacional ainda não supre a demanda. Papaléo defende que o plasma, originário de doações voluntárias, pertence à população e que a comercialização por empresas privadas poderia restringir o acesso aos medicamentos.
Nelson Mussolini, presidente-executivo do Sindusfarma, aponta a necessidade de uma política mais estruturada para o setor, incluindo o incentivo à doação de sangue, para que o Brasil se torne um polo exportador e não importador de hemoderivados. Ele alerta para o risco de a Hemobrás ser sucateada caso falte matéria-prima, e sugere que, mesmo sem comercialização direta, uma contribuição pela doação, como cestas básicas, poderia ser considerada.
Fonte: futurodasaude.com.br

