Carla Camurati defende diversidade no cinema nacional e critica foco em violência e ditadura
A cineasta, voz importante na retomada do cinema brasileiro nos anos 90, lança o documentário “Raízes do Sagrado Feminino” e discute a necessidade de ampliar os temas abordados nas produções nacionais.
O cinema brasileiro vive um momento de reconhecimento internacional, com filmes como “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” ganhando destaque em premiações globais. No entanto, Carla Camurati, diretora, roteirista e produtora, aponta para uma preocupação em relação à produção nacional: a excessiva concentração em temas como violência e ditadura.
A crítica à monotonia temática e a busca por diversidade
Camurati expressa sua inquietação com a repetição de assuntos em muitos filmes brasileiros. “Existe uma repetição de assunto: a violência está impressa em 70% de tudo o que temos produzido por aqui. E isso é muito ruim: quanto mais violência você exibe, mais ela se multiplica e mais influencia”, declara a cineasta em entrevista ao NeoFeed. Segundo ela, embora temas como repressão policial e tensões sociais tenham ajudado a colocar o cinema nacional no mapa internacional, eles não devem ser o único passaporte para o reconhecimento.
Oscar e a importância do olhar interno
Apesar de reconhecer a relevância de prêmios como o Oscar, Camurati adota uma postura crítica. “Acho o Oscar maravilhoso, mas sou muito crítica”, afirma. Ela ressalta que a premiação americana, embora tenha começado a abrir espaço para produções internacionais, foi feita primordialmente para o público americano. “É muito bom estar lá, mas precisamos valorizar o nosso espaço aqui no Brasil”, defende a diretora, enfatizando a necessidade de a indústria cinematográfica nacional priorizar a qualidade e a diversidade de conteúdo.
“Raízes do Sagrado Feminino”: um novo olhar para questões sociais
Aos 65 anos, Carla Camurati se prepara para lançar seu sétimo longa-metragem, o documentário “Raízes do Sagrado Feminino”. Produzido ao longo de nove anos, o filme investiga como as escrituras das cinco maiores religiões do mundo moldaram e ainda moldam o papel da mulher na sociedade. A obra explora como narrativas religiosas foram convertidas em estruturas culturais, sociais e políticas que, por vezes, legitimam silenciamentos e exclusões. “O que me levou a fazer esse filme não foi o meu encantamento com as religiões — que existe —, mas sim os feminicídios, que em 2017 já eram graves e só cresceram desde então”, revela a diretora.
A liberdade criativa e o espaço feminino na indústria
Camurati defende a preservação da liberdade artística como essencial para o crescimento do cinema. Ela alerta que a entrada de grandes estúdios no mercado pode comprometer esse aspecto. A cineasta também destaca a importância do espaço feminino na indústria cinematográfica, reconhecendo os avanços, mas afirmando que ainda há um caminho a percorrer. Em “Raízes do Sagrado Feminino”, ela optou por dar voz a especialistas e líderes religiosos, como a monja Coen e a historiadora Mary Del Priore, em vez de aparecer nas entrevistas, buscando enriquecer a narrativa com diferentes perspectivas sobre o tema.
Fonte: neofeed.com.br

