Superando Barreiras e Abandono na Rocinha
Em meio à complexidade urbana da Rocinha, o projeto Favela Compassiva emerge como um farol de esperança, levando dignidade e cuidado a moradores em fase final de vida. A iniciativa, liderada pelo professor Alexandre Silva, confronta a dura realidade de abandono extremo e barreiras físicas que sobrecarregam a Atenção Primária. Relatos chocantes, como o de uma paciente com esclerose lateral amiotrófica confinada em uma casa marcada por tiros de fuzil, ou um idoso com câncer encontrado com mordidas de ratos e úlceras, evidenciam a profundidade da vulnerabilidade – que Silva prefere chamar de “vulneração”, pois não se trata de risco, mas de privação de cuidados essenciais.
Comunidades Compassivas: Um Modelo de Empatia e Ação
O projeto se baseia no conceito de Comunidades Compassivas, idealizado por Allan Kellehear, que visa capacitar a própria vizinhança para cuidar de seus membros em momentos de adoecimento e finitude. Na Rocinha, mulheres voluntárias aprendem técnicas vitais de higiene oral e troca de fraldas, transformando a solidariedade em ação prática. Essa abordagem é crucial, especialmente quando serviços como o SAMU enfrentam dificuldades de acesso por questões de segurança, levando os moradores a improvisarem métodos de transporte de enfermos. A ortotanásia, a morte no tempo certo e com qualidade de vida, é o foco, em contraposição a debates sobre eutanásia em um país tão desigual.
O Cuidado Paliativo Além das Favelas
A ausência de uma rede de cuidados não se restringe às favelas. Silva traça um paralelo com Copacabana, bairro com alta concentração de idosos, mas que também registra casos de solidão e mortes em isolamento. A diferença, segundo ele, reside na natureza da vulnerabilidade: em bairros de alto padrão, é a solidão que impera, esbarrando no individualismo. O professor enfatiza que o cuidado paliativo não é um rótulo para o paciente, mas sim a ação de cuidar, desmistificando a ideia de “pessoa paliativa”.
Expansão e o Desafio de Belém
A escolha de Belém para expandir o projeto foi estratégica, dada a alta incidência de aglomerados subnormais na capital paraense. Para que a cidade estabeleça comunidades compassivas robustas, alinhadas à Política Nacional de Cuidados Paliativos, é fundamental desmistificar e desromantizar o cuidado. A Favela Compassiva propõe uma postura ativa diante do sofrimento, transitando da simpatia para a empatia. “Nós precisamos caminhar para a empatia. Diante do sofrimento do outro, eu não me conforto, eu fico incomodado. A partir disso vem a compaixão”, conclui Silva, ressaltando a necessidade de se importar verdadeiramente com o outro.
Fonte: viva.com.br

