domingo, maio 31, 2026
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Sandra Gamarra: A Artista Peruana Que Usa Cópias Para Descolonizar Museus e Questionar a História da Arte no Masp

A arte da cópia como ferramenta crítica

A artista peruana Sandra Gamarra Heshiki transforma a cópia em sua principal arma de crítica em sua exposição “Réplica”, atualmente em cartaz no Museu de Arte de São Paulo (Masp). Ao reinterpretar obras clássicas e inserir elementos de culturas não representadas nas narrativas europeias, Gamarra desafia a forma como a história da arte é contada e a estrutura dos museus.

Uma de suas obras expostas, uma releitura de “Paisagem com tamanduá” (c. 1660) do neerlandês Frans Post, exemplifica essa abordagem. A pintura, que inicialmente se apresenta como uma paisagem clássica, revela um rasgo central que expõe o espaço expositivo do Masp. Dentro dessa intervenção, Gamarra insere uma urna funerária marajoara, um artefato de culturas originárias que historicamente foram marginalizadas nas representações artísticas europeias sobre o Brasil.

“Da paisagem me interessa o olhar recortado sobre a natureza. Me interessa muito como as lógicas da paisagem europeia se encaixam (quase à força) na paisagem tropical. Me interessa o que ela mostra, mas, sobretudo, o que oculta”, explica a artista sobre sua motivação em desvendar as camadas ocultas das obras e narrativas.

LiMac: Uma Instituição Fictícia Contra a Classificação Colonial

Crescendo no Peru sob um regime ditatorial e com acesso limitado a obras originais europeias, Gamarra desenvolveu uma relação particular com a cópia e a reprodução. Essa vivência a levou a questionar a forma como os museus europeus classificam suas coleções e o espaço dedicado às produções latino-americanas.

Como resposta, ela fundou o LiMac (Museu de Arte Contemporânea do Peru, em sua concepção fictícia), uma instituição que existe primeiramente em seu acervo online e em cópias produzidas por ela mesma. A exposição no Masp traz o LiMac para o espaço físico, com réplicas de obras consagradas e uma pintura que retrata um ambiente corporativo repleto de fotocopiadoras, simbolizando sua prática de apropriação e reinterpretação.

“Hoje, essa pintura pode ser lida como uma espécie de chave para a prática da Sandra, como se ela fosse uma artista-fotocopiadora, alguém que se apropria, copia e fagocita essas imagens”, comenta o curador Guilherme Giufrida, ressaltando a centralidade da cópia na obra de Gamarra.

Descolonização e a Nova Devoção às Imagens

A exposição “Réplica” dialoga com a programação do Masp dedicada às histórias latino-americanas, promovendo uma crítica à matriz colonial e às formas de classificação que moldam a percepção da arte.

Giufrida observa que apresentar o trabalho de Gamarra em uma instituição como o Masp é um convite à reflexão. “É muito forte apresentar Réplica em uma instituição com um acervo como o do Masp, porque alguns dos artistas aos quais a Sandra reage estão ali presentes. É o próprio museu se abrindo a uma crítica institucional — não ao Masp em si, mas à ideia de museu, à sua matriz colonial e às formas de classificação”, afirma.

A artista vê a descolonização de um museu como uma tarefa “impossível”, mas a entende como um “estado de alerta”, uma sensibilidade para práticas e lógicas normalizadas que estruturam hierarquias de dominação. A mostra também convida o espectador a se tornar parte da obra, refletindo sobre a “nova devoção às imagens” na arte contemporânea, onde peregrinações a exposições se assemelham a rituais.

O Virtuosismo que Exige Tempo

O trabalho de Sandra Gamarra impressiona pelo virtuosismo técnico, que, segundo a artista, serve para “dar tempo”. Em uma era de consumo rápido de imagens, sua pintura, mesmo a realista, exige contenção e atenção do observador.

“Acho que o virtuosismo me dá tempo”, explica a artista. “A sedução pede, em troca, tempo — tempo para se aproximar, para ver. Em tempos em que tudo é feito correndo, a pintura (e não apenas a realista) ainda é um território que exige contenção.”

A exposição demanda do visitante um tempo para ajustar o olhar, questionar a veracidade das representações e perceber os detalhes nas bordas e avessos das imagens. Ao final, o público se reconhece em pinturas em escala real de pessoas observando obras de arte, transformando-se nos “novos peregrinos” da era contemporânea.

Fonte: neofeed.com.br

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