segunda-feira, agosto 10, 2026
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Zumví: 35 Anos Construindo o Maior Quilombo Visual do Brasil com a Memória Negra da Bahia

A Origem de um Legado Visual

Em 1990, em Salvador, Bahia, nasceu o Zumví Arquivo Afro Fotográfico, um coletivo fundado por Lázaro Roberto, Aldemar Marques e Raimundo Monteiro. O objetivo era claro: registrar a vida negra sob uma perspectiva autêntica, vinda de dentro da própria comunidade. Lázaro Roberto, um dos fundadores, aprendeu desde cedo que fotografar era um ato de posicionamento. Crescendo na periferia de Salvador e convivendo com trabalhadores, movimentos sociais e manifestações culturais, ele buscou registrar a vida negra não como um observador externo, mas como parte dela. Para ele, a fotografia era uma ferramenta de afirmação e testemunho.

O Quilombo Visual: Mais que Fotos, Histórias

O termo “quilombo visual” define com precisão o acervo do Zumví. Mais do que um conjunto de imagens, é um espaço de preservação de memória, construído por aqueles que viveram e testemunharam a história. A exposição no Instituto Moreira Salles (IMS) apresenta cerca de 400 fotografias de um arquivo que conta com impressionantes 50 mil registros produzidos ao longo de 35 anos. Essa vasta coleção é um tesouro para a compreensão da fotografia brasileira e, especialmente, dos movimentos negros no país. O nome “Zumví” é uma fusão do aportuguesamento de “zoom” com a ideia de testemunho “vi”, encapsulando a essência do projeto: aproximar-se para registrar e dar visibilidade.

Conquistando Confiança e Registrando a Realidade

A abordagem de Lázaro Roberto para fotografar, por exemplo, os feirantes da Feira de São Joaquim, exigia uma conexão genuína. Ele dedicou um ano frequentando o local, compartilhando momentos e conquistando a confiança das pessoas, mostrando que seu interesse ia além de meras imagens, buscando histórias e nomes. Essa relação de pertencimento é o que diferencia o Zumví de outros registros. Em vez de um olhar passageiro e exótico, as fotos do Zumví capturam a dignidade, o afeto e o orgulho de pessoas negras em seu cotidiano, em cenas que contrastam com a representação frequentemente ausente ou estereotipada na mídia.

Da Igreja à Fotografia: Uma Jornada de Conscientização

A paixão de Lázaro Roberto pela arte e pela fotografia foi despertada em um ambiente inesperado: a igreja. Um padre italiano incentivou jovens a se engajarem em atividades culturais e de formação política. Foi nesse contexto que Lázaro descobriu o poder da arte como veículo de conscientização política e racial. Ao ver um ensaio documental, ele compreendeu que a fotografia podia ser uma forma poderosa de se posicionar no mundo. Trabalhando em uma gráfica da igreja e imprimindo materiais para movimentos sociais, ele economizou para comprar sua primeira câmera e começou a registrar as mesmas manifestações que ajudava a divulgar, transformando sua visão da cidade de Salvador em uma paisagem predominantemente negra e vibrante.

Um Legado em Constante Expansão

O Zumví, que começou com três fotógrafos, hoje reúne o trabalho de sete artistas negros e continua a crescer. A iniciativa de Lázaro, Aldemar e Raimundo, que uniram seus acervos e visões, mesmo com a saída de Aldemar e Raimundo da fotografia, resultou em um legado duradouro. A frase de Lázaro Roberto, “Vou fotografar hoje para o amanhã”, ecoa a urgência e a visão de futuro que impulsionaram a criação deste “quilombo visual”, um marco na preservação da memória e identidade afro-brasileira.

Fonte: neofeed.com.br

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