Fim de um ciclo de endividamento recorde?
O cenário financeiro das famílias brasileiras atingiu um patamar crítico em julho, com o endividamento alcançando 82% do total, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Este indicador, embora não signifique necessariamente superendividamento, reflete a percepção dos consumidores sobre sua própria saúde financeira, fortemente influenciada pela cultura de crédito e pela relação individual com empréstimos.
Inadimplência cede, mas o fantasma da dívida permanece
Em um alívio pontual, o percentual de famílias com contas ou dívidas em atraso apresentou uma leve queda em julho, recuando 0,1 ponto percentual para 29,8%. Contudo, o grupo de consumidores que admite não ter condições de quitar seus débitos em atraso subiu para 12,3%, retornando a níveis observados entre março e maio. O tempo médio de atraso no pagamento também diminuiu, atingindo 64,6 dias, o menor patamar desde dezembro de 2025. Além disso, a proporção de famílias com atrasos superiores a 90 dias caiu para 48,5%, o menor índice desde agosto do ano passado.
Desenrola 2.0: Um respiro com desafios persistentes
Os dados de julho coincidem com os primeiros 90 dias de operação do Desenrola 2.0, programa de renegociação de dívidas do governo federal. Apesar da melhora no tempo de atraso, as famílias relatam um comprometimento ainda maior da renda com o pagamento de dívidas. O percentual de consumidores que destinam mais da metade de seus rendimentos para quitar débitos subiu para 19%, o pico desde março. O comprometimento médio da renda com dívidas avançou para 29,5% em julho. A parcela de famílias com dívidas contraídas há mais de um ano diminuiu, mas aumentou a proporção de quem se endividou nos últimos seis meses, cujas parcelas tendem a ser mais pesadas no orçamento.
Endividamento em todas as faixas de renda, mas com nuances
A pesquisa aponta um aumento generalizado do endividamento em todas as faixas de renda em julho. As famílias com rendimentos superiores a dez salários mínimos registraram o maior avanço, chegando a 72% de endividados, com um aumento de 4,1 pontos percentuais. Por outro lado, este mesmo grupo de alta renda foi o único a apresentar queda nos atrasos de pagamento. Em contrapartida, famílias com renda de até três salários mínimos foram as únicas a registrar aumento nos atrasos e na parcela que declara não ter condições de quitar seus débitos. Apesar dos sinais de resiliência, como o aumento da massa de rendimentos e ocupação, a CNC projeta um aumento nas contas em atraso e no endividamento no próximo trimestre, reforçando a necessidade de medidas para aliviar o bolso do trabalhador e impulsionar o setor produtivo.
Fonte: viva.com.br

