O Fim de uma Era Comercial e o Início de uma Crise Humanitária
Há exatos cinco anos, em 15 de agosto de 2021, o Talibã reassumiu o controle do Afeganistão. Este marco histórico desencadeou uma série de transformações profundas, não apenas no país asiático, mas também nas relações internacionais. Para o Brasil, a mudança foi drástica: de parceiro comercial de commodities como frango e milho, o país se tornou um dos principais destinos para refugiados afegãos fugindo do regime extremista.
O impacto econômico foi imediato. As exportações brasileiras para o Afeganistão sofreram uma queda vertiginosa de 82% no primeiro ano após a ascensão do Talibã. Embora o Brasil ainda exporte mais do que importa do Afeganistão, um cenário estável desde 2022, as importações tiveram uma retração de quase 50% em 2022. As commodities que antes dominavam as vendas brasileiras, como frango e milho, foram gradualmente substituídas por café, cacau e pimenta, refletindo a instabilidade econômica afegã e o congelamento dos laços diplomáticos, uma vez que o Brasil não reconhece oficialmente o governo do Talibã.
Afegãos Buscam Refúgio no Brasil em Números Recordes
A mudança mais notável na relação Brasil-Afeganistão reside no fluxo migratório. Enquanto entre 2011 e 2020 apenas 86 refugiados afegãos residiam no Brasil, segundo a OBMigra, o número explodiu para mais de 11.000 após 2021, um aumento impressionante de 10.000%, conforme dados de 2024 do Acnur. A facilitação na emissão de vistos humanitários levou a uma crise humanitária em aeroportos como o de Guarulhos (SP), onde muitos afegãos chegavam sem ter para onde ir, chegando a formar acampamentos no terminal.
Em resposta à situação, o governo brasileiro alterou as regras para a concessão do visto humanitário em outubro de 2023. Agora, é exigida a garantia prévia de abrigo, com os pedidos sendo processados exclusivamente por ONGs credenciadas. O processo envolve a validação dos solicitantes por ONGs junto ao Ministério da Justiça e à Polícia Federal, antes da autorização do visto pelo Ministério das Relações Exteriores. Essa medida visa a limitar o número de vistos à capacidade de acolhimento das instituições.
Desafios Burocráticos e a Ausência de Embaixadas
A jornada para obter asilo para afegãos se tornou ainda mais complexa pela ausência de uma embaixada brasileira em Cabul. Para conseguir o documento, os requerentes precisam cruzar fronteiras para o Paquistão ou Irã e se deslocar até Islamabad ou Teerã, cidades que abrigam embaixadas brasileiras. Há relatos de afegãos que obtiveram os vistos, mas enfrentaram dificuldades para atravessar as fronteiras.
O Brasil nunca estabeleceu uma embaixada em Cabul, apesar de um decreto presidencial em 2010 ter oficializado a criação. Os altos custos de segurança, a complexidade logística e a instabilidade do país inviabilizaram o projeto. Em 2016, a representação brasileira em Cabul passou a ser exercida de forma cumulativa pela Embaixada em Islamabad. Por outro lado, a embaixada do Afeganistão em Brasília foi fechada em 2015, antes da tomada pelo Talibã, como medida de contenção de gastos devido à baixa interação bilateral. O atendimento sul-americano foi centralizado na embaixada em Washington D.C., que, por sua vez, foi fechada em 2022, após o Talibã assumir o poder, em linha com a política dos Estados Unidos de não reconhecer o regime.
Fonte: www.poder360.com.br

