Acesso desigual à oncologia no Brasil exige soluções urgentes
O oncologista e especialista em economia da saúde, Stephen Stefani, destacou em entrevista ao Futuro Talks os profundos abismos no acesso ao tratamento oncológico no Brasil. Enquanto 20% da população com planos de saúde dispõe de tecnologias de ponta, os 80% dependentes do Sistema Único de Saúde (SUS) enfrentam atrasos significativos na incorporação de novas drogas e tecnologias, gerando uma gritante iniquidade. Stefani ressalta que essa disparidade começa no diagnóstico, com filas para exames e menor garantia de qualidade no sistema público, impactando diretamente o prognóstico dos pacientes.
Inovação e o desafio do preço: A toxicidade financeira
Stefani enfatiza que a inovação em oncologia, embora essencial, precisa caminhar lado a lado com discussões mais maduras sobre precificação e alocação de recursos. O modelo de precificação atual, segundo ele, mais se alinha à lógica internacional do que à realidade brasileira. O especialista alerta para a ‘toxicidade financeira’, um fenômeno em que o alto custo dos tratamentos afeta a capacidade do paciente de arcar com o próprio cuidado, comprometendo a adesão e a continuidade do tratamento. Ele defende a necessidade de rever o modelo de precificação e estabelecer limites para o que a sociedade está disposta a investir em novas tecnologias, considerando o impacto em outras áreas essenciais como educação e segurança.
Ferramentas para a incorporação de tecnologias e o papel do médico
Para otimizar a incorporação de novas terapias, Stefani sugere a adoção de instrumentos como acordos de compartilhamento de risco, redução de desperdícios e maior transparência na aplicação de recursos. Ele argumenta que as decisões não devem se basear unicamente no potencial clínico, mas sim na relação entre benefício real, custo e impacto para toda a população. O médico também precisa ser um agente nesse debate, compreendendo não apenas a ciência, mas também os custos e o valor real das terapias. Stefani incentiva os profissionais a incluírem a capacidade de pagamento do paciente em suas avaliações, evitando prescrever tratamentos que se tornem financeiramente insustentáveis.
Diálogo multissetorial e educação: Caminhos para a sustentabilidade
A solução para os complexos desafios da oncologia no Brasil passa, invariavelmente, pelo diálogo ampliado entre governo, indústria, profissionais de saúde, operadoras, academia e pacientes. Stefani acredita que soluções duradouras dependem dessa articulação, aliada a uma sólida formação em ciência e economia da saúde. Ele defende a educação desde cedo sobre esses temas para que as futuras gerações sejam capazes de discernir evidências científicas de opiniões e tomar decisões mais responsáveis. A reengenharia do sistema de saúde, desde o preço das tecnologias até a forma de remuneração, é vista como um passo crucial para garantir o acesso equitativo e a sustentabilidade a longo prazo.
Fonte: futurodasaude.com.br




