Oncologista Angélica Nogueira: “Programas de rastreio de câncer devem ser prioridade absoluta no Brasil”
Presidente de honra da SBOC alerta para a necessidade de fortalecer a prevenção e o rastreamento para combater o aumento de casos e mortalidade por câncer no país.
O câncer, segunda maior causa de morte geral no Brasil e já líder em diversos municípios, exige atenção prioritária nas políticas públicas. Segundo Angélica Nogueira, presidente de honra da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), o país precisa urgentemente reorganizar a atenção primária e implementar programas de rastreamento mais robustos e efetivos. Em entrevista ao Futuro Talks, Nogueira destacou que, apesar dos avanços, a incidência de câncer continua crescendo, enquanto a mortalidade se consolida como a principal causa de óbito em muitas regiões, superando doenças cardiovasculares.
A Urgência da Prevenção e Rastreamento
As projeções do Instituto Nacional de Câncer (Inca) indicam cerca de 788 mil novos casos de câncer por ano entre 2026 e 2028, um cenário preocupante que reforça a necessidade de um olhar mais atento à prevenção. Nogueira enfatiza que muitos dos cânceres mais comuns, como mama, colo do útero e colorretal, são evitáveis ou têm sua mortalidade significativamente reduzida por meio de rastreamento organizado. No entanto, falhas na conscientização e no acesso ainda impedem que programas eficazes, como o do Papanicolau e a pesquisa de sangue nas fezes para câncer colorretal, atinjam seu potencial máximo. A oncologista ressalta a importância de programas de mamografia bem estabelecidos, que podem reduzir a mortalidade a um custo muito menor do que novas tecnologias terapêuticas de alto valor.
Desafios e Soluções para a Rede de Saúde
A organização da rede de atenção primária é vista como fundamental para a robustez dos programas de rastreio. Nogueira sugere o uso de inteligência artificial e tecnologias digitais para otimizar a coleta de dados e a orientação à população. Ela compara o potencial do SUS em organizar programas de rastreamento com o sucesso do sistema vacinal, que, apesar de desafios, demonstra a capacidade da rede em atingir a população. Para o câncer colorretal, a pesquisa de sangue nas fezes é apontada como um exame mais simples e barato que a colonoscopia, que ficaria como retaguarda. Para o câncer de colo de útero, apesar de existirem ferramentas eficazes como o HPV DNA, a falta de conscientização feminina é um gargalo. A SBOC tem trabalhado no desenvolvimento de um índice de priorização de tecnologias para orientar a incorporação de inovações de forma técnica e considerando as limitações de recursos.
Investimento, Custo e Formação Médica
A sustentabilidade financeira e o custo das novas tecnologias oncológicas são pontos de atenção. Nogueira defende a criação de mecanismos de compra mais eficientes, o fortalecimento da indústria nacional e o incentivo à pesquisa clínica. A SBOC desenvolveu um índice de priorização de tecnologias para auxiliar o governo na tomada de decisões baseadas em impacto populacional e custo-efetividade. A oncologista critica o alto custo dos medicamentos no Brasil, que segue um paradigma de precificação americano, e sugere parcerias público-privadas e o desenvolvimento de medicamentos biossimilares. Além disso, a formação médica em oncologia é apontada como deficiente, com a falta de disciplinas obrigatórias nas faculdades de medicina, o que compromete o conhecimento básico dos futuros médicos em prevenção e rastreamento. A distribuição desigual de oncologistas no país e a necessidade de fortalecer os Centros de Referência em Alta Complexidade (Unacons e Cacons) também foram destacadas como pontos cruciais para o avanço no controle do câncer.
Abertura para o Diálogo e o Futuro da Oncologia
Angélica Nogueira vê um momento de maior abertura para o diálogo entre as sociedades médicas e o governo, o que considera fundamental para a tomada de decisões mais assertivas na área da oncologia. A SBOC tem se colocado como consultora técnica, oferecendo suporte para a criação de políticas mais eficazes. A expectativa com as revoluções tecnológicas, como inteligência artificial e biópsia líquida, é otimista, com o potencial de transformar o controle e o manejo do câncer nas próximas décadas. No entanto, a prioridade deve continuar sendo o investimento em prevenção e rastreamento, estratégias mais acessíveis e com alto impacto na redução da incidência e mortalidade da doença.
Fonte: futurodasaude.com.br




