A estagnação da produtividade brasileira e a lição do agro
O Brasil enfrenta um desafio crônico de baixa produtividade desde os anos 1980. Enquanto a renda per capita avançou, esse crescimento tem sido mais extensivo, baseado na incorporação de mais pessoas ao mercado de trabalho, do que intensivo, impulsionado por ganhos de eficiência. A economista Solange Srour, diretora de macroeconomia do UBS GWM, destaca o agronegócio como um contraponto positivo, apresentando um crescimento expressivo de produtividade, próximo à fronteira tecnológica e com rápida adoção de inovações como a inteligência artificial (IA).
Serviços: o gargalo da produtividade nacional
O setor de serviços, responsável por cerca de 70% do emprego no país, é apontado como o principal entrave para o avanço da produtividade agregada. Caracterizado pela fragmentação, baixa concorrência e informalidade, este setor tem dificuldade em absorver e disseminar novas tecnologias. Srour argumenta que, sem a difusão da IA nos serviços, a tecnologia corre o risco de aprofundar a heterogeneidade produtiva e aumentar as desigualdades internas, em vez de promover a convergência econômica.
IA como vetor de convergência ou de divergência?
A forma como a inteligência artificial será adotada no Brasil determinará seu impacto macroeconômico. Se a IA se concentrar em setores específicos, como o agronegócio, os ganhos gerais serão limitados. No entanto, uma ampla difusão para áreas como comércio, logística, saúde e educação tem o potencial de aumentar significativamente o produto potencial do país, reduzir restrições de oferta e moderar pressões inflacionárias.
Pilares para a transformação digital e produtiva
Para que o Brasil colha os benefícios da IA e evite aprofundar as disparidades, Srour aponta quatro pilares essenciais: 1) investimento robusto em infraestrutura digital e energética; 2) formação de capital humano com foco em competências digitais, raciocínio analítico e proficiência em inglês; 3) ampliação do acesso a financiamento para a adoção de tecnologia, especialmente por pequenas e médias empresas; e 4) fortalecimento do arcabouço regulatório. A experiência bem-sucedida do agronegócio demonstra que, com alinhamento entre capital humano, integração externa, escala e incentivos econômicos, a convergência produtiva é possível.
O futuro da produtividade brasileira depende de escolhas estratégicas
A decisão crucial para o Brasil não é sobre liderar a vanguarda tecnológica, mas sobre como garantir que os avanços da IA transformem a base produtiva de forma ampla e inclusiva. A IA pode ser um motor de convergência ou um amplificador de assimetrias. O resultado final dependerá menos da tecnologia em si e mais das decisões institucionais, educacionais e macroeconômicas que o país tomará nos próximos anos, buscando replicar a lógica de sucesso do agronegócio em todos os setores da economia.
Fonte: neofeed.com.br




