Identificando e Abordando a Violência
Um novo guia tem sido fundamental para capacitar médicos no atendimento a vítimas de violência doméstica, abrangendo desde as formas física, sexual, psicológica, moral e patrimonial até a assistência centrada na paciente. A abordagem recomendada envolve perguntas simples e neutras, focadas no cuidado e na segurança. Questões como “o que aconteceu?”, “há dor ou lesões?” e “você se sente segura para voltar para casa?” são essenciais para compreender a situação clínica e avaliar riscos imediatos, evitando a repetição desnecessária do relato e a pressão por detalhes que possam revitimizar a paciente.
O Desafio da Não Denúncia e a Atenção do Médico
É comum que vítimas de violência doméstica não desejem denunciar a agressão, muitas vezes por dependência financeira do agressor. Nesses casos, a paciente pode recear que a própria instituição de saúde realize a denúncia e, por isso, pode apresentar versões alternativas para explicar ferimentos, como acidentes domésticos. O médico, portanto, precisa estar atento à compatibilidade entre as lesões observadas e o relato da paciente, buscando indícios que possam sugerir a violência.
Atendimento em Casos de Acompanhamento pelo Agressor
Quando a vítima chega à unidade de saúde acompanhada do possível agressor, a prioridade é garantir um atendimento privado. A entrega de receitas, atestados ou relatórios não deve ocorrer na presença do acompanhante. O médico deve combinar com a paciente, em particular, as orientações de retorno e seguimento. É crucial que o profissional também pense em sua própria segurança, acionando a segurança interna da unidade caso identifique uma situação de risco que possa levar a um confronto com o acompanhante.
A Importância Vital do Prontuário Médico
O prontuário médico é uma ferramenta essencial e pode servir como prova em investigações e processos judiciais. Mesmo que a vítima não denuncie a agressão imediatamente, um prontuário detalhado e cronológico pode confirmar a repetição de episódios de violência ao longo do tempo. A recomendação é que o registro seja claro, objetivo, fiel aos fatos, com linguagem técnica e sem interpretações pessoais. O relato da paciente deve ser preferencialmente registrado de forma literal e entre aspas. O exame físico deve ser descrito detalhadamente, incluindo número, localização, características, dimensões e estágio de evolução das lesões, bem como sinais emocionais relevantes. A descrição das condutas adotadas, exames solicitados, encaminhamentos e orientações, além da participação de outros profissionais, também são indispensáveis.
O Que Evitar no Atendimento
Para não revitimizar a paciente, o médico deve evitar perguntas repetitivas, desnecessárias ou que não tenham relevância para o cuidado imediato. Perguntas que culpam a vítima ou sugerem que ela provocou a violência, como “por que você não saiu dessa relação antes?”, são inadequadas. Questionamentos que colocam o relato em dúvida, insinuando exagero ou mal-entendido, também devem ser evitados. Comentários moralizantes, invasivos, ou que minimizem a situação, tratando-a como uma “briga de casal”, devem ser completamente descartados.
Fonte: viva.com.br




