França Aposta em Poder Nuclear e Autonomia para Liderar Segurança na Europa em Cenário de Crise
Paris intensifica seu arsenal estratégico e busca protagonismo como potência protetora do continente, enquanto a Otan mantém seu papel central na defesa europeia.
A França, sob a liderança do presidente Emmanuel Macron, está reforçando sua capacidade nuclear e ampliando seu papel como garantidora da segurança europeia. O movimento visa consolidar o país como um eixo de defesa autônomo no continente, em um contexto internacional de crescentes tensões e incertezas, especialmente com a guerra na Ucrânia e o futuro comprometimento dos Estados Unidos com a segurança europeia.
Reforço do Arsenal Nuclear e Tradição Estratégica Francesa
Em um pronunciamento na base de submarinos de Île Longue, Macron anunciou a construção de um novo submarino nuclear, o “L’Invincible”, com lançamento previsto para 2036. A declaração “Um reforço do nosso arsenal é indispensável” sublinha a importância estratégica que o país atribui à sua dissuasão nuclear. Segundo Raquel dos Santos Missagia, professora de Relações Internacionais da UFF, essa iniciativa representa uma intensificação da tradição francesa de buscar autonomia estratégica, iniciada com Charles de Gaulle, mantendo sua independência militar mesmo após a criação da Otan.
França: Única Potência Nuclear da UE e Quarto Maior Arsenal do Mundo
Desde que o Reino Unido deixou a União Europeia com o Brexit em 2020, a França se tornou a única potência nuclear do bloco. Atualmente, o país possui cerca de 290 ogivas nucleares operacionais, distribuídas entre submarinos e forças aéreas estratégicas, posicionando-se como o quarto maior arsenal nuclear do mundo, atrás apenas de Rússia, Estados Unidos e China, conforme dados do Sipri.
Complementaridade Estratégica e Cooperação com Aliados
Apesar do fortalecimento de suas capacidades, a estrutura de segurança europeia continua fundamentalmente baseada na Otan. Missagia explica que a dissuasão nuclear europeia, embora importante, ocupa um papel secundário em relação à aliança liderada pelos EUA. A segurança estratégica europeia opera em três níveis: a Otan com o arsenal americano, a dissuasão nuclear autônoma de França e Reino Unido, e as capacidades militares convencionais dos países europeus. Nesse sentido, França, Alemanha e Reino Unido, com a participação da Itália, Polônia e Suécia, estão desenvolvendo conjuntamente projetos de mísseis de longo alcance, visando maior capacidade de resposta e menor dependência dos EUA.
Impactos e Preocupações no Cenário Global
A expansão do arsenal nuclear francês, embora parte de uma estratégia defensiva para garantir soberania e liberdade de ação, gera preocupações em um sistema internacional já instável. A professora Missagia alerta que o aumento de arsenais nucleares pode intensificar desconfianças mútuas e reforçar a centralidade dessas armas na política internacional. Além disso, conflitos no Oriente Médio, como os recentes ataques com mísseis e drones, podem ter efeitos indiretos na Europa, provocando novos fluxos migratórios em decorrência de crises humanitárias e econômicas na região.
Fonte: www.poder360.com.br

