Epigenética: como o ambiente e o estilo de vida reescrevem o seu destino genético, segundo cientista da UFRJ
Mariano Zalis explica que a biologia não é um roteiro fixo e que nossas escolhas podem influenciar até gerações futuras, impactando saúde e longevidade.
A medicina moderna caminha para um cuidado cada vez mais individualizado, saindo do conceito de “melhor tratamento para todos” para o “melhor tratamento para cada paciente”. Nesse cenário, a epigenética, ciência que estuda como o ambiente e o estilo de vida interagem com nossos genes, surge como uma ferramenta poderosa para desvendar mistérios que a leitura direta do DNA não explica, especialmente em doenças complexas como obesidade e depressão.
Segundo Mariano Zalis, geneticista e pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a genética nos fornece um “livro de receitas” com o potencial de tudo o que uma célula pode fazer. No entanto, a epigenética é quem determina quais receitas serão utilizadas e quando. “É a regulação epigenética que faz com que alguns genes estejam ligados e outros desligados, em uma sintonia fina para que todo o organismo funcione”, explica Zalis em entrevista ao Futuro da Saúde.
Genética vs. Epigenética: O Interruptor da Vida
Enquanto a genética se refere aos genes herdados, a epigenética trata dos mecanismos que controlam a expressão desses genes. “Se a genética é o livro de receitas, a epigenética é a diferença entre um bom cozinheiro, que usa os ingredientes necessários na medida correta, e o mau cozinheiro, que pode exagerar em um ingrediente ou esquecer outro”, compara o cientista. A grande vantagem da epigenética reside em sua plasticidade: ao contrário do DNA, que é imutável, as marcas epigenéticas podem ser moduladas por mudanças no estilo de vida, como terapia, alimentação e exercícios.
Hábitos de Vida e o Risco de Doenças
A epigenética também lança luz sobre a penetrância de certas condições genéticas. Doenças com 100% de penetrância, como a hemofilia, se manifestarão independentemente do estilo de vida. Contudo, em condições com penetrância menor, como a mutação BRCA1 associada ao câncer de mama, fatores externos regulados pela epigenética podem influenciar o risco. “O que são esses outros 20% [de risco não determinado pela genética]? É onde os fatores externos, como o estilo de vida, podem ajudar: alimentação equilibrada, prática de exercícios, socialização, etc.”, pontua Zalis.
Longevidade e a Influência do Contexto Social
A discussão sobre longevidade ganha novas nuances com a epigenética. A diferença entre idade cronológica e biológica pode ser influenciada por fatores como dieta, exercícios e menor exposição a riscos. Zalis ressalta que o contexto social é crucial: “As chamadas blue zones, onde vivem os longevos, mostram que a longevidade está associada a uma vida mais tranquila, em uma comunidade mais segura, com laços sociais mais fortalecidos.” Ele critica a ideia de que a saúde é apenas uma escolha individual, lembrando que a desigualdade social limita as opções disponíveis para grande parte da população.
Trauma Geracional e Memória Biológica
Um dos aspectos mais fascinantes da epigenética é sua capacidade de registrar memórias biológicas, inclusive de traumas. Zalis explica que a exposição a traumas dos pais antes do nascimento pode gerar marcas epigenéticas que afetam o desenvolvimento e a resposta ao estresse. Um estudo com descendentes de holandeses que passaram fome durante a Segunda Guerra Mundial revelou alterações metabólicas e de metilação nas gerações seguintes, demonstrando como o corpo “lembra” de traumas ancestrais, impactando a saúde física e mental.
O Futuro da Epigenética: Precisão e Equilíbrio
A epigenética não é uma panaceia, mas oferece um novo olhar sobre a complexidade da saúde humana. O futuro aponta para o desenvolvimento de uma medicina de precisão epigenética, com testes capazes de diferenciar idade cronológica e biológica, permitindo intervenções mais personalizadas. “Epigenética, na minha concepção, diz equilíbrio, equilíbrio, equilíbrio. É você estar bem com você mesmo”, conclui Zalis, enfatizando a importância de escolhas saudáveis e, acima de tudo, da felicidade e do bem-estar proporcionados por um contexto social e emocional equilibrado.
Fonte: futurodasaude.com.br




