A Internet como Amplificadora de Transgressões
A recente onda de indignação gerada pela morte do cão Orelha, em Florianópolis, e o debate em torno da minissérie “Adolescência” da Netflix, que retrata discursos de ódio e misoginia consumidos por jovens, expõem uma preocupante realidade: a violência cometida por adolescentes.
O caso do cão Orelha, onde quatro adolescentes são os acusados, levanta questionamentos sobre a influência do ambiente online em comportamentos agressivos. Embora a polícia ainda não tenha confirmado a ligação dos suspeitos com grupos virtuais de incentivo à violência, especialistas e defensores de direitos animais e infantojuvenis apontam a internet como um palco recorrente para a exposição a conteúdos violentos, incluindo agressões a animais e a grupos vulneráveis.
Algoritmos e a Dessensibilização à Violência
O psiquiatra infantil Guilherme Polanczyk explica que a internet funciona como um “palco maior” para a busca de status na adolescência, transformando a transgressão em espetáculo. A exposição contínua a conteúdos violentos, segundo ele, pode dessensibilizar jovens em desenvolvimento, normalizando atos antes considerados proibidos.
O especialista ressalta que a crueldade extrema contra animais, como no caso do cão Orelha, é um sinal clínico grave, podendo ser indicativo de traços psicopáticos. Maria Mello, do Instituto Alana, acrescenta que os algoritmos das plataformas digitais podem induzir meninos a conteúdos de “masculinidade tóxica” e meninas a pressões estéticas e conteúdos depressivos, todos com alto potencial de engajamento.
Violência Contra Animais: Um Alerta para a Sociedade
A diretora do Instituto Ampara Animal, Rosangela Gerbara, alerta que atos de sadismo contra animais devem ser encarados como um “sentinela” de comportamentos mais graves. “Existem vários estudos que comprovam que pessoas que são violentas com animais têm a tendência a ser violentas com pessoas também”, afirma, defendendo a “Teoria do Elo”, que correlaciona agressão a animais com potencial para agressão humana.
A advogada Ana Paula de Vasconcelos, do Fórum Animal, anuncia que a entidade buscará responsabilização no caso do cão Orelha, com ações civis contra os pais dos adolescentes, buscando indenização para a coletividade, diante das medidas brandas na esfera criminal para menores.
Responsabilidade Parental e o Diálogo Digital
A negligência no monitoramento da vida digital dos adolescentes pode ter sérias consequências jurídicas. A advogada Tatiana Naumann destaca que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) impõe o dever de vigilância aos pais, e a omissão diante de sinais de risco pode ser interpretada como negligência.
O advogado criminalista Gabriel Huberman Tyles pondera que a proteção dos filhos nem sempre configura crime, mas alerta que a coação de testemunhas pode levar à responsabilização criminal. A coordenadora jurídica do Instituto Alana, Ana Cláudia Cífali, defende que a proibição da tecnologia não é a solução, mas sim o diálogo ativo e a supervisão. “O principal é o diálogo dentro de casa, trazer isso para a mesa do almoço, tornar o diálogo sobre a vida digital frequente, cotidiano, porque só assim se evita muito o aprofundamento da violência”, conclui.
O que é o Discord?
O Discord é um aplicativo de conversa popular entre jovens, especialmente gamers. Permite a criação de servidores com canais de voz e texto, e a transmissão de tela. A idade mínima para criar conta é 13 anos, mas alguns servidores possuem restrições de idade. Em 2023, o VIVA já havia denunciado grupos no aplicativo que incentivavam desafios perigosos como automutilação e exposição de fotos íntimas.
Denuncie e Busque Ajuda
Casos de maus-tratos a animais podem ser denunciados anonimamente pelo Disque 181 (Polícia Civil) ou 190 (Polícia Militar). Para animais silvestres, contate o Ibama (0800 61 8080) ou a Polícia Militar Ambiental. O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional 24h pelo telefone 188, chat e e-mail.
Fonte: viva.com.br




