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Antonio Dias: A ‘Não-Pintura’ que Radicalizou a Arte e Antecipou o Mundo Atual

A Subtração da Imagem: O Gesto Inovador de Antonio Dias

Antonio Dias (1944-2018) revolucionou a pintura ao propor a “não-pintura”, um conceito onde a imagem é intencionalmente subtraída para dar lugar à palavra. Essa abordagem radical é o foco da exposição “Image+Mirage” na galeria Gomide&Co, em São Paulo, que apresenta sete obras cruciais produzidas entre 1968 e 1971, período em que o artista viveu em Milão. Quatro destas peças inéditas no Brasil integram a aclamada série “The Illustration of Art”, marcando um ponto de virada em sua carreira.

Da Tipografia Helvetica à Crítica Visual

Organizada em colaboração com a Sprovieri, de Londres, a mostra destaca obras da coleção do marchand italiano Gió Marconi, que pela primeira vez se tornam acessíveis ao público brasileiro. Nessas “não-pinturas”, Dias adota a linguagem do design gráfico, utilizando letras e diagramas inspirados na tipografia Helvetica. Ao transformar elementos visuais cotidianos, como a linguagem do design e da comunicação, em matéria de crítica, ele convida o espectador a uma reflexão profunda sobre a visualidade neutra que nos cerca.

Image/Mirage: Uma Leitura Política e Universal

A obra “Image/Mirage” (1970) exemplifica essa estratégia. A tela, de grandes dimensões, apresenta um campo branco atravessado por uma fina cruz central e a palavra “IMAGE” acima e “MIRAGE” abaixo, emolduradas por uma borda preta. O curador Gustavo Motta aponta que a palavra “Mirage” remete ao caça supersônico francês utilizado na Guerra dos Seis Dias, transformando a cruz em uma mira. Essa dualidade entre linguagem e política, entre o aparente e o oculto, reflete o clima de tensão que levou Dias ao autoexílio na Itália e ecoa em questões globais contemporâneas.

O “Avesso” da Pintura e a Arte Premonitória

A exposição também explora o “avesso” da obra de Dias, revelando documentos e o processo criativo por trás das peças. O artista, que antes integrou a Nova Figuração com trabalhos de forte crítica social e política à ditadura militar no Brasil, ao se mudar para a Itália, entrou em contato com a pintura analítica, que voltava o olhar para as estruturas da própria tela. Em obras como “Free Continent: Population” (1968–69), a escassez e a falta são exploradas visualmente através de um jogo de tabuleiro com a palavra “Hungry”. A montagem da exposição, assinada por Deysson Gilbert, reforça essa ideia, expondo o verso das telas e utilizando estruturas metálicas que remetem aos signos de Dias. O vocabulário visual de Dias – miras, alvos, territórios – tornou-se assustadoramente presente no mundo atual, configurando sua arte como uma profecia reconhecida tardiamente, como alertava Walter Benjamin.

Fonte: neofeed.com.br

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