Tragédia em Amendolara
Um incêndio criminoso em Amendolara, na região da Calábria, Itália, tirou a vida de quatro trabalhadores imigrantes, levantando um véu sobre a dura realidade da exploração no campo italiano. As vítimas, Waseem Khan, 29 anos, do Paquistão, e Amin Fazal Khogjani, 28, Ullah Ismat Qiemi, 19, e Safi Iayjad, 27, todos do Afeganistão, estavam na Itália com autorização de residência válida e sem antecedentes criminais. Eles haviam chegado à Calábria após passarem pela Sardenha.
O procurador de Castrovillari, Alessandro D’Alessio, classificou o episódio como de “gravidade inaudita”, tanto pelo número de vítimas quanto pela forma como ocorreu. Embora a exploração organizada, conhecida como “caporalato”, seja uma das principais linhas de investigação, o procurador não descarta outras possibilidades.
O Relato do Único Sobrevivente
Mohammad Taj Alamyar, um afegão de 35 anos, é o único sobrevivente do massacre. Visivelmente abalado, ele acusou os agressores, que foram detidos e são acusados de homicídio voluntário, de serem membros da máfia. Segundo seu relato à emissora pública Rai, os dois homens detidos exigiam dinheiro pelo transporte dos trabalhadores, e a recusa em pagar teria levado ao incêndio. Alamyar descreveu que os agressores, cidadãos paquistaneses, ameaçavam os imigrantes com facas e pistolas para forçá-los a trabalhar sem remuneração adequada, apesar de oferecerem comida e alojamento.
As câmeras de vigilância do local corroboram, em parte, o testemunho de Alamyar. Ele e os colegas viviam em um apartamento em Villapiana, providenciado pelos próprios agenciadores paquistaneses que residem no município. Dez pessoas dividiam o pequeno espaço.
A Rede de Exploração no Campo Italiano
Desde 20 de abril, as vítimas trabalhavam na colheita de morangos em Scansano Ionico. Eram os dois agenciadores paquistaneses que os transportavam diariamente. Inicialmente, os pagamentos eram feitos em dinheiro vivo e sem contrato. Posteriormente, um acordo teria sido estabelecido: 45 euros por dia, mas o valor não era integralmente pago, com deduções de cinco euros diários pelo transporte. O relatório “Agromafie e caporalato” de 2022 estima que cerca de 230 mil trabalhadores agrícolas na Itália, um quarto do total, sejam explorados, com alta incidência em regiões como Apúlia, Sicília, Campânia, Calábria e Lácio.
Lei Contra o “Caporalato” em Confronto com a Realidade
A Lei 199, aprovada em 2016, visa combater o “caporalato” com medidas repressivas e preventivas, incluindo o aumento de penas e a responsabilidade de empregadores. Contudo, a vertente preventiva tem sido ineficaz devido à falta de fiscalização e ao medo dos trabalhadores imigrantes, que, para obterem permissão de residência, acabam aceitando condições de trabalho análogas à escravidão. A lei prevê a concessão de autorização de residência para quem denuncia, mas a burocracia e os longos prazos deixam os migrantes vulneráveis a represálias.
Apesar de considerada avançada na Europa, a lei tem sido pouco aplicada. O caso de Amendolara expõe a perigosa aliança entre o crime organizado italiano e máfias estrangeiras, que exploram imigrantes vulneráveis. A primeira-ministra Giorgia Meloni condenou o crime e prometeu levar os responsáveis à justiça, enquanto sindicatos anunciaram manifestações em protesto contra a violência e a exploração.
Fonte: pt.euronews.com

