A automedicação com anti-inflamatórios, prática comum entre brasileiros, pode levar a sérios problemas de saúde, especialmente para pessoas com condições preexistentes.
Sentir dor e buscar alívio imediato com medicamentos é um reflexo comum na vida de muitos brasileiros. No entanto, a escolha frequente por anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), como ibuprofeno, diclofenaco e naproxeno, sem orientação médica, representa um risco considerável à saúde. Uma pesquisa de 2024 do ICTQ revelou que cerca de 90% dos brasileiros se automedicam, e uma parcela significativa recorre a esses fármacos para dores diversas.
A ‘tríade perigosa’ e as interações medicamentosas
O perigo se intensifica quando os AINEs são combinados com outros medicamentos, uma realidade frequente para pacientes com hipertensão ou doenças cardíacas. A chamada “tríade perigosa” envolve o uso conjunto de anti-inflamatórios, diuréticos e medicamentos para pressão arterial, como inibidores da ECA ou bloqueadores do receptor de angiotensina. Esses compostos afetam o sistema de regulação da filtração renal, podendo reduzir drasticamente a pressão necessária para o bom funcionamento dos rins, levando à insuficiência renal.
Outras interações preocupantes incluem o uso de AINEs com inibidores de SGLT2 (usados para diabetes e insuficiência cardíaca), lítio (para transtorno bipolar) e ciclosporina (para doenças autoimunes). Essas combinações também podem comprometer a função renal e diminuir a eficácia de medicamentos anti-hipertensivos. Além disso, os AINEs podem potencializar o efeito de anticoagulantes e antiagregantes plaquetários, aumentando o risco de sangramentos.
O impacto nos rins: uma doença silenciosa
Os rins trabalham ininterruptamente na filtração do sangue, necessitando de uma pressão interna adequada para tal. Os AINEs bloqueiam a produção de prostaglandinas, substâncias essenciais para manter os vasos sanguíneos renais abertos e bem irrigados. A consequência é a contração desses vasos, diminuindo o fluxo sanguíneo e a capacidade de filtração. Em indivíduos saudáveis, esse efeito pode ser temporário. Contudo, em pessoas com problemas renais preexistentes, hipertensão, diabetes ou idosos, essa redução pode ser suficiente para causar danos graves e irreversíveis.
Um estudo do Hospital das Clínicas da UFPE indicou que 14,8% dos pacientes com doença renal crônica utilizavam AINEs, muitos por automedicação, para dores reumáticas e musculoesqueléticas. Nesses grupos, a margem de segurança renal já é reduzida. Em idosos, o declínio natural da função renal com o avançar da idade agrava o quadro. Uma única dose de anti-inflamatório pode desencadear insuficiência renal aguda, e o uso prolongado pode levar à doença renal crônica, com lesões permanentes que podem evoluir para a necessidade de diálise ou transplante.
“O uso prolongado é perigoso até para rins saudáveis, com aumento do risco de desenvolver doença renal crônica, mesmo em pessoas sem fatores de risco prévios como diabetes, pressão alta, obesidade e idade avançada”, alerta a nefrologista Patricia Taschner Goldenstein. A doença renal crônica, muitas vezes, evolui silenciosamente, com cerca de 90% dos afetados não sabendo de sua condição nos estágios iniciais. Ao tomar AINEs regularmente, esses indivíduos aceleram a perda da função renal sem perceber.
Efeitos cardiovasculares e em outros órgãos
Os AINEs também representam riscos para o sistema cardiovascular. Eles podem levar à retenção de sal e água, resultando no aumento da pressão arterial. A piora da função renal contribui para esse efeito, impactando negativamente o coração. Em pacientes com doenças cardíacas, o uso prolongado pode desencadear eventos graves como angina e infarto agudo do miocárdio.
Além disso, o uso contínuo de anti-inflamatórios pode afetar o estômago e o fígado, levando ao desenvolvimento de úlceras e hepatites, especialmente em idosos ou em pessoas com complicações prévias. Por isso, a recomendação é que o uso de AINEs seja feito com cautela, na menor dose eficaz e pelo menor tempo possível.
Alternativas e a importância da investigação da causa
Existem alternativas mais seguras para o alívio da dor quando usadas corretamente, como o paracetamol e relaxantes musculares. No entanto, a escolha do tratamento ideal deve ser individualizada, considerando o tipo de dor, as condições clínicas do paciente e uma avaliação médica criteriosa. O mais importante, segundo os especialistas, é identificar e tratar a causa raiz da dor, em vez de apenas suprimir o sintoma com medicamentos de forma indefinida.
Fonte: www.poder360.com.br

