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Polilaminina: por que notícias sobre supostas curas para lesão medular exigem cautela

O que é a polilaminina e por que ela gera expectativa?

A polilaminina é uma versão aprimorada de uma proteína natural do corpo, a laminina, conhecida por auxiliar na ligação entre células e no crescimento e regeneração de tecidos nervosos. Pesquisadores da UFRJ desenvolveram essa molécula potencializada, que, em estudos preliminares, demonstrou capacidade de estimular a regeneração de neurônios após lesões na medula espinhal. A medula espinhal é crucial para os movimentos e sensações do pescoço para baixo, além de controlar funções autônomas como micção e regulação da pressão sanguínea.

Notícias recentes sobre a polilaminina ganharam destaque após um estudo publicado em agosto de 2025. A pesquisa, liderada por cientistas da UFRJ, acompanhou seis cães com paraplegia e relatou melhora nos movimentos de quatro deles e melhora sutil em outros dois, após um ano de observação. Posteriormente, o laboratório Cristália, responsável pela produção do medicamento, anunciou sua aplicação experimental em humanos, com relatos de recuperação de mobilidade em tetraplégicos.

Estudos em andamento e a aprovação da Anvisa

Antes mesmo do estudo com cães, em 2018, a polilaminina foi aplicada experimentalmente em um pequeno grupo de oito humanos. Segundo os pesquisadores, seis deles recuperaram o controle motor, embora dois tenham falecido por complicações relacionadas à gravidade de suas condições. Este estudo piloto, porém, ainda não foi oficialmente publicado.

Em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início da Fase 1 de estudos clínicos com a polilaminina em humanos no Brasil. Esta fase inicial tem como objetivo principal avaliar a segurança da substância, garantindo que ela não cause danos significativos. Somente após a aprovação nesta etapa, a pesquisa poderá avançar para fases posteriores, onde a eficácia será testada em grupos maiores.

Cautela diante de resultados preliminares

Apesar do entusiasmo gerado pelas notícias, especialistas reforçam a necessidade de cautela. O professor Alexandre Fogaça, que participará dos testes no HCFM/USP, ressalta que a polilaminina ainda está em estágio inicial de pesquisa e longe de ser um tratamento comprovado. Ele enfatiza que a substância “ainda não é um remédio e não é um tratamento”.

Um ponto de atenção é o acesso à polilaminina via ações judiciais. Até o momento, 18 pacientes receberam o medicamento dessa forma, o que pode acarretar riscos, pois os dados desses casos não são computados de forma controlada. O vice-presidente de Pesquisa e Desenvolvimento da Cristália, Rogério Almeida, afirma que observam benefícios nesses pacientes, mas reconhece a falta de estatísticas formais.

Críticas aos estudos iniciais incluem a ausência de um grupo controle, essencial para comparar os efeitos da substância com um placebo e isolar sua ação. Além disso, o artigo sobre o estudo com cães é um preprint, ou seja, ainda não passou por revisão por pares, um processo fundamental para a validação científica.

O que ainda não sabemos e os próximos passos

A recuperação de mobilidade em pacientes com lesão medular pode ocorrer naturalmente em alguns casos, especialmente em lesões incompletas, onde nem todas as vias nervosas foram definitivamente danificadas. Estima-se que cerca de 15% das pessoas com lesões medulares completas recuperem alguma função motora sem intervenções específicas. Por isso, Fogaça destaca a necessidade de estudos mais estruturados para determinar se as melhoras observadas são realmente devido à polilaminina.

Outra lacuna é a falta de detalhes públicos sobre as condições dos pacientes que receberam a droga em aplicações anteriores, como o tipo e a gravidade da lesão, e há quanto tempo ela ocorreu. Esses fatores são cruciais para interpretar os resultados.

O estudo da Fase 1 autorizado pela Anvisa envolverá cinco pacientes com lesões agudas e completas da medula espinhal torácica, ocorridas há menos de 72 horas. Os critérios rigorosos visam garantir a segurança, pois a aplicação é feita diretamente na medula, e lesões incompletas poderiam ser agravadas pelo procedimento. Para casos crônicos, onde há fibrose, Almeida menciona a possibilidade de tratamentos prévios para remover o tecido cicatricial, algo ainda testado em cães.

A ciência exige rigor para evitar vieses. Estudos multicêntricos, sem ligação direta com quem desenvolveu ou comercializa a substância, e com cegamento (onde nem o paciente nem o aplicador sabem se estão recebendo a droga ou placebo) são ideais para garantir a imparcialidade. O estudo da polilaminina em humanos caminha para isso, mas ainda precisa passar por essas etapas.

Almeida concorda com a necessidade de cautela para não gerar falsas esperanças, mas defende os avanços: “qualquer evolução que se tenha frente à evolução nenhuma — que é o que a história natural da lesão nos mostra — já é melhor”. A comunidade científica, embora animada, mantém a prudência, aguardando os resultados das fases subsequentes para uma compreensão mais robusta da segurança e eficácia da polilaminina.

Fonte: saude.abril.com.br

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