Milhares de Mortos e Crianças Entre as Vítimas
As estimativas sobre o número de mortos na repressão aos protestos no Irã variam drasticamente, com relatos de grupos de direitos humanos e fontes médicas indicando que o número real pode ultrapassar os 30.000. Essa dificuldade de verificação é acentuada pelo rigoroso bloqueio da internet imposto pelas autoridades iranianas. Relatórios alarmantes mencionam milhares de mortos, incluindo crianças, o que contrasta fortemente com os números oficiais divulgados pelo governo.
Aiatolá Khamenei Reconhece Milhares de Mortos, Atribuindo Culpa a Forças Externas
Em declarações de 27 de dezembro, o aiatolá Ali Khamenei admitiu que “vários milhares de pessoas” perderam a vida, mas atribuiu as mortes a “criminosos nacionais e internacionais”. Khamenei tem repetidamente classificado os manifestantes como “desordeiros e terroristas” ligados aos governos dos Estados Unidos e de Israel, sem, no entanto, apresentar provas concretas de como tais operações em larga escala teriam sido orquestradas.
Cirurgião Detalha Evidências de Execuções e Corpos em Cemitérios
O Dr. Hashim Moazenzadeh, um cirurgião com contato regular com fontes médicas e hospitalares no Irã, informou à Euronews Farsi que dados de instalações forenses indicam pelo menos 22.000 mortes registradas. Ele apresentou evidências de que as forças de segurança atiraram contra pessoas que tentavam fugir, com ferimentos na parte de trás da cabeça, sugerindo execuções. Em um dos casos mais chocantes, mais de 900 corpos foram levados ao cemitério Behesht-e Zahra, em Teerã, nas 36 horas seguintes aos dias de maior repressão, em 18 e 19 de janeiro.
ONU e ONGs Documentam Violência e Falta de Transparência
A relatora especial da ONU para os direitos humanos no Irã, Mai Sato, declarou ao Le Monde que, embora o governo iraniano reporte pouco mais de 3.000 mortos, os relatórios que ela recebeu apontam para dezenas de milhares. A Amnistia Internacional e a Human Rights Watch documentaram a morte de pelo menos 28 manifestantes e transeuntes, incluindo crianças, entre 31 de dezembro de 2025 e 3 de janeiro. As organizações denunciam o uso ilegal e excessivo de armas de fogo, incluindo espingardas, e agressões físicas contra manifestantes majoritariamente pacíficos. Imagens de vídeo verificadas pela Amnistia mostram pelo menos 205 sacos mortuários em uma morgue improvisada em Kahrizak, perto de Teerã, criada para lidar com o excesso de corpos.
Famílias Exigidas a Pagar Resgate e Aceitar Narrativas Oficiais
Relatórios indicam que as famílias dos falecidos estão sendo pressionadas a pagar quantias entre US$ 5.000 e US$ 7.000 para recuperar os corpos de seus entes queridos. Algumas famílias foram forçadas a aceitar que seus falecidos fossem descritos como apoiadores do governo, em vez de manifestantes, antes de terem acesso aos corpos. Evidências sugerem que algumas pessoas feridas que estavam em tratamento hospitalar podem ter sido mortas posteriormente. A maioria das vítimas foi resultado de tiros, em uma escalada de violência em relação a repressões anteriores.
Profissionais de Saúde Detidos e Desaparecimentos Forçados
O Dr. Qassim Fakhraei, diretor do Hospital Oftalmológico Farabi, em Teerã, relatou que mil pessoas procuraram o hospital com lesões oculares apenas durante os protestos de dezembro, indicando um alto número de traumatismos oculares causados por balas. Médicos e profissionais de saúde que trataram manifestantes feridos foram detidos por se recusarem a cooperar com as autoridades, sendo considerados testemunhas-chave dos eventos e enfrentando uma “eliminação sistemática”. Centenas de manifestantes foram presos durante os protestos e batidas policiais, com muitos submetidos a desaparecimentos forçados e detenções incomunicáveis.
Protestos Econômicos Evoluíram para Críticas ao Regime
Os protestos, que começaram no final de dezembro com queixas econômicas, como o aumento dos preços dos alimentos devido à desvalorização da moeda e à hiperinflação, rapidamente se espalharam pelo país. As autoridades iranianas impuseram um bloqueio quase total da internet, restringindo a comunicação interna e o fluxo de informações para o exterior, o que dificultou ainda mais a apuração dos fatos e o acesso a serviços essenciais.
Fonte: pt.euronews.com




